15 de jan de 2008

Porque sou católico?

Durante a última primavera eu estava falando em uma conferência perto de Santa Clara, Califórnia. Gosto de andar ao ar livre sempre que posso. Um dia, minha caminhada matinal me levou até a Igreja Católica Romana Nossa Senhora da Paz, perto do meu hotel. Atrás da igreja havia uma enorme estátua de Maria cercada por um lindo jardim, que por sua vez estava cercado de pistas abarrotadas.

Atraído por esse pequeno jardim de paz no meio do trânsito matinal caótico da área da baía, me vi sentado sobre um banco com a imagem de Maria me fazendo sombra, me olhando com um olhar gentil e seus braços estandidos em minha direção. Uma senhora asiática se ajoelhou a seus pés, obviamente em oração e se mostrando angustiada, sua mão estendida repousando carinhosamente sobre o peito de um dos pés da estátua. Sentado ali, fui profundamente tocado pela devoção da mulher pela imagem de Maria.

Que irônico, pensei, para um menino criado em família protestante estar sentado ali com lágrimas nos olhos emocionado com Nossa Senhora da Paz e com uma humilde senhora asiática em busca de paz. Naquele dia também me tornei, em certo sentido, um pouco mais católico.

Muitos anos atrás nossa igreja (não-litúrgica em suas origens) começou a usar o credo niceno em nossas reuniões públicas. No primeiro ano e até o segundo, editamos uma palavra no credo, mudando "cremos na santa igreja católica, apostólica" para "cremos na igreja universal, apostólica", constrangidos por usar a palavra católica, com medo de sermos acusados (por ex-católicos raivosos, na grande maioria) de submissão latente à autoridade papal.

O credo - uma declaração de fé que os cristãos têm usado com propósitos litúrgicos (isto é públicos, relacionados à adoração) e educacionais através dos séculos - não é apologético em relação à palavra católica. Finalmente, abri mão de meu preconceito a fim de aprender aquilo que a palavra verdadeiramente significa, especialmente no contexto daquela sentença no credo.

"Cremos... na igreja", o credo diz, e essa não é uma declaração fácil de engolir, porque estamos cercados de denominações, divisões, discussões, grandes polêmicas e disputas triviais. É onde entra a parte "cremos": você só pode conhecer a unidade da igreja crendo nela, e não necessariamente enxergando-a. Quando você crê nela, consegue ver através da poeira da superfície e chega à beleza e à unidade que brilham por baixo. A ortodoxia generosa presume que as divisões, embora trágicas, são superficiais comparadas à unidade cristã profunda, apesar de quase nunca valorizada. Talvez quanto mais crermos e percebermos essa unidade, mais fácil será deixar para trás a desunião.

Chamar a igreja cristã de "santa" é dizer algo sobre o seu propósito, e não sobre o seu comportamento em determinado momento. A palavra igreja significa aqueles que são chamados. Santo significa dedicado a um propósito sagrado. Assim, a igreja é uma comunidade de pessoas chamadas para fora da correria profana e das discussões seculares da vida para se dedicarem a um propósito sagrado.

A igreja santa do credo é também "apostólica", o que para alguns se refere a uma crença de que somente eles podem relacionar sua linhagem a de um dos 12 apóstolos. Essa crença tem frequentemente alimentado outro tipo de elitismo, que tem minado os ideais de unidade e universalidade do credo de um modo nem um pouco santo no sentido da palavra. Ma há uma compreensão mais católica do termo apostólica: ela significa missional. Os apóstolos foram aqueles chamados para aprender (como discípulos), a fim de serem enviados para uma missão (que é o que significam a raiz grega da palavra apóstolo e a raiz latina da palavra missão).

A partir dessa perspectiva, discípulos são apóstolos em treinamento; o discipulado cristão (ou a formação espiritual) significa treinar para o apostolado, treinar para uma missão. Com essa compreensão, nos importamos menos se linhagem, ritos, doutrinas, estruturas e terminologias estão corretas, e mais se ações, serviço, iniciativas, bondade e eficácia são boas. (Essa é uma daquelas frases que mereceriam ser lidas novamente).

Em uma abordagem missional/apostólica do cristianismo, todos os componentes de nossa fé (adoração, liturgia, credos, teologia, comunhão, formação espiritual, educação religiosa, publicações, etc.), embora em si mesmos válidos e valiosos, devem gerar boa obras, vidas bonitas, boa criatividade e bondade que ajudem nosso mundo a voltar para os seu trilhos, a ser verdadeira e inteiramente bom de novo, da maneira como Deus o criou para ser.

A diferença entre essas duas compreensões de apostólico/missional reflete duas maneiras de pensar o cristianismo. Uma abordagem diz: "Olhem aqui, pessoal. Estamos certos, e vocês estão errados. Temos a linhagem correta dos apóstolos originais e vocês não. Lamentamos, mas, nós estamos dentro e vocês estão fora. Há bênçãos para os que estão andando direito e estão dentro e conseqüências para os que estão errados e fora. Portanto, se vocês querem estar do lado das bênçãos e longe das conseqüências é melhor se juntarem a nós, uma vez que somente nós podemos estabelecer a nossa linhagem até os apóstolos".

A outra abordagem diz: "Estamos aqui em uma missão para juntar forças com Deus para trazer benção ao nosso mundo tão necessitado. Esperamos trazer a benção divina a você, quem quer que você seja, e seja no que for que você acredite, se você quiser se juntar a nós nessa missão e à fé que a cria e sustenta, seja bem-vindo. Se você tem sido parte do problema, nós o convidamos a mudar de lado, a se tornar parte da solução de Deus. Essa é a missão que recebemos dos apóstolos. Buscamos seguir o exemplo deles, que foi o de viver radical, corajosa e generosamente".

O que significa dizer que a santa igreja apostólica é também católica? A palavra não significa católica romana; ela significa universal. Desse modo, "católica romana" parece mais um paradoxo - universal, exceto para aqueles que não concordam com o escritório central em Roma - mas isso não é assim tão simples. Na verdade, a Igreja Católica Romana talvez seja a denominação mais verdadeiramente católica do mundo, reconhecendo desde o Concílio Vaticano II que seus "irmãos separados" ao menos são irmãos, um status mais elevado do que aquele que algumas denominações protestantes concedem aos católicos!

A história por detrás da palavra católica pode ajudá-lo a apreciá-la mais que antes. Por toda a história da igreja e especialmente nos primeiros séculos, movimentos de renovação e de reforma surgiram, todos necessários à igreja. Com muita freqüência esses movimentos se enxergaram como a versão nova e melhorada do cristianismo, ou até mesmo como a única versão legítima. Essa auto-imagem inflada dos reformadores quase sempre levava ao rebaixamento de todos os outros cristãos - os que não se juntavam ao movimento - relegando-os ao status de fingidos desprezados e de perdedores comprometidos. Esse movimentos de renovação produziram assim um tipo de elitismo que dizia, "somos os únicos que estamos certos. Todos os que não se unirem a nós estão errados, fora, são sub ou não cristãos".

Contra esse tipo de elitismo outros diziam: "Não. Queremos que vocês reformadores sejam parte de nós, mas não iremos nos juntar a vocês se isto significa excluir qualquer outro. Cremos que Deus quer que a igreja cristã seja uma comunidade receptiva, calorosa, não uma comunidade exclusivista, elitista. Continuaremos a ser a igreja para todos os que vocês rejeitarem. Seremos católicos - a igreja receptiva e calorosa de todos, não apenas de uns poucos exclusivos e elitizados".

Há um orgulho especial que é fruto de ser parte dos exclusivos, da elite, dos importantes. Mas ser católico significa encontrar outra alegria: o prazer de aceitar e de receber os pobres, os cegos, os vacilantes, os aleijados, os imperfeitos, os confusos, os equivocados e os diferentes. Isso não significa baixar nossos padrões de discipulado autêntico mais do que erguer nossos padrões de aceitação inspirados em Cristo.

Para além do cristianismo católico, eu gostaria de acrescentar seis coisas (poderia mencionar muito mais) sobre o cristianismo católico que enriqueceram e têm continuado a enriquecer minha vida em Cristo.

O CATOLICISMO É SACRAMENTAL
Um sacramento é um objeto ou prática que faz mediação entre o divino e os humanos. Ele carrega em si algo de Deus para nós; ele é um meio de graça e comunica sacralidade. Não me importo acerca do número de sacramentos que existem (embora eu tenha a tendência a preferir as listas maiores à menores). O que eu realmente gosto acerca da natureza sacramental do catolicismo é isso: por meio do aprendizado de que algumas coisas podem carregar em si o sagrado, nos tornamos abertos ao fato de que todas as coisas (todas as coisas boas, todas as coisas criadas) podem carregar em si o sagrado: o sorriso meigo de uma criança com síndrome de Down, a alegria saltitante de um cachorrinho, o arco gracioso nas costas de uma bailarina, o trabalho de câmera em um filme de arte, um bom café, um bom vinho, bons amigos, boa conversa. Comece com estes três sacramentos - ou sete - e muito em breve tudo se tornará potencialmente sacramental como, creio, deveria ser.

O CATOLICISMO É LITÚRGICO
Toda denominação é litúrgica. Algumas não sabem disso porque suas liturgias não são escritas. Por exemplo, um reavivamento pentecostal aparentemente livre de formas possui, de fato, certo ritmo esperado para o qual alguns desvios talvez sejam aceitos, mas outros não. Se você já esteve em muitos encontros protestantes que afirmam ser não-litúrgicos, que fogem das orações escritas em prol das "genuínas" (isto é, espontâneas), você em breve começará a perceber que (perdoe o meu cinismo) o Senhor, Deus Pai, é muito bom, Deus Pai, e é tão bom louvar o seu poderoso e maravilhoso nome, Deus Pai, glória, aleluia, e somos tão abençoados por estar aqui, Deus Pai, aleluia, nos alegrando em sua santa presença, aleluia, e se eu ouvir mais um clichê religioso colado a outros em uma longa seqüência, eu irei pôr abaixo toda essa coisa supostamente chamada de experiência espontânea, gritando?

Ter algumas pessoas talentosas (como o anglicano Thomas Cranmer ou os liturgistas católicos muito talentosos) a nos livrar de nossos habituais clichês "espontâneos" com palavras bem escolhidas, frases bem elaboradas e parágrafos bem pensados é um grande presente da liturgia.

Verdadeiramente, a liturgia conduzida por um líder anêmico com uma voz monótona e um coração nessas mesmas condições é uma coisa triste, provavelmente nem melhor (talvez pior) que as orações improvisadas, repletas de clichê. Mas você já experimentou liturgias bem escritas, espiritualmente planejadas, conduzidas por líderes talentosos, entusiasmados e apaixonados? Você certamente dirá, "graças a Deus!"


O CATOLICISMO RESPEITA A TRADIÇÃO
A Reforma protestante separou duas irmãs: A Escritura e a tradição. A irmã mais velha conta a história que conduz a Cristo e se passa através dele, e a irmã mais nova lembra aquilo que aconteceu desde então. Essas irmãs não são as mesmas, mas não deveriam ser inimigas. Chesterton celebra a tradição assim:

A tradição é a única democracia que se estende através do tempo. Ela significa confiar em um consenso de vozes humanas comuns e não em algum registro isolado ou arbitrário... Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia daqueles que meramente acontecem de estar caminhando. Todos os democratas fazem objeção a que homens sejam desqualificados em razão da morte. A democracia nos recomenda que não negligenciemos a opinião de um homem bom, mesmo se ele for nosso cavalariço [mordomo]; a tradição nos pede que não negligenciemos a opinião de um homem bom, mesmo se ele for nosso pai (Orthodoxy, 48)

Uma causa da fenda entre tradição e Escritura parece ter sido esta: alguns trataram a tradição como se ela fosse um regime endurecido, monolítico, totalitário, eliminando a liberdade de consciência e de questionamento, como um livro longo de precedentes legais acumulados que respondem a todas as perguntas para sempre. Embora essa visão da tradição tivesse gerado alguma confiança, ela se mostrou sufocante a outros. Ironicamente, alguns reagiram e criaram um tipo de biblicismo que foi igualmente sufocante.

Gabriel Fackre oferece uma visão diferente, mais equilibrada da tradição (que inclui, a propósito, a tradição da igreja de interpretar a Bíblia):

O círculo da tradição não está fechado, pois a obra eclesial do Espírito não está concluída. A doutrina tradicional se desenvolve na medida em que Cristo e o evangelho são vistos em uma perspectiva sempre renovada. Velhas formulações são corrigidas, e aquilo que é passado adiante é enriquecido. A abertura, no entanto, não derruba os velhos marcos. Como tradição é um dom do Espírito, sua trajetória se move na direção certa, embora ela ainda não tenha chegado ao seu destino.


O CATOLICISMO CELEBRA MARIA
Sentado ali diante de Nossa Senhora da Paz na última primavera, lembrei como nós, protestantes, sempre havíamos considerado a veneração a Maria idolatria (nós a chamamos de Mariolatria). Ma naquela manhã, imerso no constante zumbido do trânsito, percebi só um pouco, eu acho, daquilo que os católicos conhecem mais profundamente. Ao venerar Maria (não adorá-la, é claro!) passamos a conhecer mais plenamente quem somos: simples humanos, como Maria, chamados a levar Cristo em nossos corpos, através de nossas vidas ao nosso mundo, sussurrando "Eu sou a serva do Senhor".
E não somente isso, mas enquanto estava sentado ali, percebi o quanto minha fé protestante estava empobrecida com seu foco exclusivamente masculino. O quanto perdemos ao não enxergar a beleza da encarnação através de Maria - uma beleza que expande o valor das mulheres, anula a vergonha de Eva, torna visível a importância da receptividade espiritual, celebra a fecundidade e a fertilidade da simples submissão: "Que assim seja conforme a sua palavra."
Eu não adoro Maria, mas eu a honro. Pode haver qualquer coisa errada em dizer de Maria aquilo que o anjo disse e que Isabel (movida pelo Espírito Santo) ecoou: que Maria é favorecida, o Senhor está com ela, e que é bendita entre as mulhere? Poderia haver qualquer coisa errada em dizer de Maria aquilo que o Espírito Santo cantou através dela: que todas as gerações a chamariam de bendita e que o Poderoso fez grandes coisas por ela?

OS CATÓLICOS SABEM COMO FESTEJAR
Talvez devido a seu sacramentalismo, a fé católica permaneceu tão convencida da encarnação de Jesus que tem estado menos predisposta a cair em um ódio implacável pelo corpo e contra vida cultural. Sim, paradoxalmente, os católicos tem ecclesiolae em ecclesia (pequenas igrejas na grande igreja) que à vezes praticam o ascetismo extremo (autonegação dos prazeres ou até mesmo dos confortos corporais). Não se pode esquecer a autoflagelação medieval, onde monges e outros se torturavam fisicamente como um tipo de mortificação carnal ou de autopurificação. E sim, há toda essa coisa do celibato entre sacerdotes e freiras.
Mas, por outro lado, você pode imaginar luteranos, presbiterianos ou batistas criando o Mardi Gras? A esse respeito, Chesterton observou: "Esses países [católicos]... são exatamente os países onde ainda há cantoria, dança, vestidos coloridos e arte a céu aberto. A doutrina e a disciplina católicas podem ser muros; mas eles são os muros de um parque de diversões"(Orthodoxy, 155)

O CATOLICSISMO NÃO PODE ESCAPAR DE SEUS ESCÂNDALOS
Escrevo essas palavras positivas sobre o catolicismo (e a catolicidade) no fim de um ano (2003) em que a igreja romana tem estado nos jornais mais por seus escândalos e processos legais do que por suas boas obras e bons frutos. Não estou insensível àquilo que esses escândalos dizem sobre o estado da Igreja Católica Romana.
Ma também não sou insensível ao fato de que igrejas protestantes e ortodoxas têm seu armários cheios de esqueletos; eles ainda não foram pegos. Ser apanhado custa caro. É doloroso. Mas também abra a possibilidade para o arrependimento. Estou confiante de que em muitos lugares o arrependimento não está acontecendo. Não considero os escândalos católicos como sendo problema "deles", mas "nosso". Se a Igreja Católica responder a seus escândalos com humildade e arrependimento apropriados, o mundo inteiro será beneficiado.
Uma ortodoxia generosa é assim. Ela reconhece que somos todos uma bagunaça. Ela vê em nossos piores fracassos a possibilidade do mais profundo arrependimento e a abertura de Deus para a nossa mais profunda cura. Ela lembra a parábola de Jesus quando diz que sempre que Deus lança a boa semente, "um inimigo" lança sementes de erva daninha. Ela compreende que você não pode arrancar o mal sem arrancar o bem junto, e assim se abstém de julgar. Ela simplesmente se alegra sempre que a boa semente cresce.

Uma ortodoxia generosa, Brian D. McLaren.

2 comentários:

  1. Que legal, vc digitou isso tudo?
    Lembra-se de quando postei "Por que sou um metodista?"?
    http://danieldliver.blogspot.com/2007/11/por-que-sou-um-metodista.html
    ;)

    p.s.: olha o que eu tive que digitar para o comentário passar: uqltcfth
    =/

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  2. Muito bem, meu filho!
    Ser católico (a) é isso.

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