1 de fev de 2008

As transgressões da inteligência

É notório e notável que apesar de toda a pirotecnia os computadores não são, em qualquer verdadeira medida, inteligentes. Se parecem ser inteligentes é mérito dos seres humanos que os programam incessantemente a fim de nos deslumbrar, e incessantemente conseguem. Esses seres humanos é que são inteligentes, mas aparentemente não o bastante para serem capazes de transmitir esse dom a seres obtusos como computadores. Matemáticos podem ser ensinados a dançar balé e poetas a programar em Java, mas ainda não conseguimos ensinar um computador a pensar.

Não, é claro, que todos de nós tenhamos tentado.

Em dezenas de laboratórios ao redor do mundo, numa rede irrigada por uma obscena torrente de verbas governamentais e privadas, cabeças dentre as mais inteligentes do planeta dedicam suas redes neurais a destilar a esquiva tecnologia da inteligência artificial – a nova e verdadeira pedra filosofal que deverá, se tudo der certo, soprar espírito no pó pela segunda vez na história.

A cada avanço na tecnologia dos computadores – e os avanços são vertiginosos – o eureka da inteligência artificial parece mais próximo, mas como a tartaruga na proverbial corrida contra Aquiles, esse momento definitivo parece estar sempre um passo infinitesimal além do nosso alcance.

Por que procurar vida inteligente entre computadores? O tentador nos computadores é sua capacidade de processamento, mas o contraponto está na sua estupidez pura e simples. Computadores são por definição burros, dóceis e subservientes. Nada os faz reagir a não ser programas, que são por sua vez longas listas ordenadas de regras. Num sentido muito fundamental, computadores são máquinas movidas a legislação.

A história da busca pela inteligência artificial termina patinando neste atoleiro: não encontramos até o momento uma legislação que os faça agir de forma inteligente (inserir aqui piada aleatória sobre os congressistas brasileiros).

Parte essencial do problema, e nisso concordam todos os pesquisadores, está em que é muito difícil definir com um grau satisfatório de precisão o que seja comportamento inteligente. Simplesmente não chegamos a um acordo sobre o assunto. Cachorros são inteligentes? Polvos? Roteiristas de Hollywood?

Encontro em Douglas R. Hofstadter esta lista de capacidades essenciais do comportamento inteligente:

* de responder a situações de forma muito flexível;

* de tirar vantagem de circunstâncias fortuitas;

* de encontrar sentido em mensagens ambíguas ou contraditórias;

* de reconhecer a importância relativa de diferentes elementos de uma situação;

* de encontrar similaridades entre situações a despeito de diferenças que possam separá-las;

* de estabelecer distinções entre situações a despeito das similaridades que possam relacioná-las;

* de sintetizar conceitos novos tomando conceitos velhos e rearranjando-os de formas novas;

* de produzir idéias inéditas.

O problema desta lista é que, tomada ao pé da letra, ela parece excluir uma enorme proporção do comportamento humano. Será possível ensinar gente de verdade a agir assim? Existirá entre os seres humanos alguma inteligência “natural”?

No campo da inteligência, a tremenda vantagem das pessoas sobre os computadores não está na capacidade de processamento, mas no fato de que aparentemente não pensamos, como eles, a partir de regras. Nosso modo de pensar é analógico, ou seja, pastoso, intuitivo, informe e difícil de sintetizar em laboratório. Não precisamos, como os computadores, de regras que nos ensinem a transgredir determinadas regras a fim de simular comportamento inteligente. Quebrar regras é natural em nós.

O contraponto deste contraponto? A desvantagem de não pensar através de regras é que, ao contrário de nossos irmãos cibernéticos, nós humanos só pensamos quando queremos pensar. A inteligência está pronta mas a vontade é fraca, e em situações de conforto moderado para cima costumamos preferir o ócio e o entretenimento à produção intelectual, à pesquisa e à solução dos problemas da humanidade.

O verdadeiro enigma não está em porque demoramos tanto a obter resultados com inteligência artificial, mas em porque, tendo nesta era tantos recursos sem precedentes e ferramentas poderosas à nossa disposição – digamos, computadores -, recusamo-nos a por em uso a nossa. Usamos o computador para jogar paciência, o processador de texto para imprimir listas de compras, a internet para encontrar pornografia e as horas vagas para consumir o Big Brother. Ninguém em sã consciência deveria nos acusar de comportamento inteligente.

Pensando bem, é muito natural supor que computadores inteligentes tenham assumido e vivamos em ignorante bem-aventurança suprindo energia à Matrix. Ou talvez esta seja uma imagem implantada por roteiristas de Hollywood para que nutramos a ilusão de sermos de alguma forma úteis.

ctrl + c e ctrl + v do Bacia das Almas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fico muuuuuuuito feliz com a iniciativa de deixar seu comentário. Aqui você pode exercer sua livre expressão e opinião: criticar, discordar, concordar, elogiar, sugerir... pode até xingar, mas, por favor, se chegar a esse ponto só aceito ofensas contra mim (Thiago Mendanha) e mais ninguém, ok? rs