23 de mai de 2008

Entorpecimento

Na Revista Enfoque do mês de Abril/2008 foi publicada uma reportagem intitulada: “Uma igreja desviada”. A reportagem comenta sobre um número que está crescendo assustadoramente no Brasil: o número de pessoas que deixam as igrejas evangélicas, os chamados coloquialmente “desviados da fé”. Os números me impressionaram, pois, de acordo com a revista estima-se que existam entre 30 e 40 milhões de pessoas nestas condições. Se levarmos em conta que de acordo com o último censo a quantidade de evangélicos no Brasil era cerca de 27,2 milhões, as tais “ovelhas perdidas” já superaram este número. Mas o que me assusta realmente não são os números, mais os principais motivos que levam as pessoas a se afastarem das igrejas. Há os mais diversos, mas de acordo com a reportagem os principais são: Brigas internas, legalismos, decepções com a liderança, sensação de abandono, falsas profecias e promessas de prosperidade não concretizadas. (como diria um amigo meu: “bem coisa de crente!”).

Sou sincero a dizer que me faltam palavras, tamanha a minha indignação, pois este é o reflexo das nossas intocadas igrejas brasileiras. Por isso o cristianismo caiu em descrédito para muitos, pois evangelismo não é mais falar de Jesus e a sua proposta de vida e amor, mas sim resolver charlatanizadamente os problemas das pessoas. As pessoas não vão mais a igreja para adorar e cultuar a Deus, para ter um momento de paz em comunhão com outros cristãos, mas transformam o lugar de adoração em um local onde Deus vai atender todos os seus caprichos, todos os seus mimos. Esta é a ilusão que plantam em suas cabeças. Evangelizar? Não é mais falar em “..quem perder essa vida, ganhá-la-á..” mas sim “você é filho de Deus e tem o direito a ter..., possuir, ...exigir...” .

O óbvio acontece, a grande maioria não recebe o que queria, pois o cerne da mensagem cristã não são bênçãos ou curas, mas sim ser um instrumento de justiça em um mundo de injustiças. O verdadeiro poder do Evangelho não é o que ele pode fazer para mim, mas sim o que ele representa pra mim, quais valores absorverei durante a minha vida para ser um verdadeiro cristão, que anda na contramão do mundo, pois no mundo fala-se em consumismo, em egocentrismo, elitismo e em medida de valores por aquilo que um individuo possui, mas os valores cristãos falam em amor, justiça, coletividade, amor ao próximo, ser um abençoador e medir os valores das pessoas por aquilo que elas realmente são. Quando não recebem ( óbvio, pois não buscaram o cerne do cristianismo ) revoltam-se, decepcionam-se com Deus e finalmente abandonam as igrejas. Serão pessoas que provavelmente desenvolverão um sentimento contrário tão grande, que não terão uma segunda chance.

Brigas internas, legalismo, sensação de abandono, falsas profecias? O que falar sobre isso? Aqueles que estão na liderança também se esqueceram do cerne do cristianismo? Onde estão os pastores que deveriam estar cuidando das pessoas? Ah! Já sei! Devem estar fazendo algum curso de marketing evangélico para fazer sua igreja “crescer” mais, pois a arrecadação está baixando, ou ainda criando estratégias políticas para que ele não seja derrubado, ou fazendo planos para tirar alguém do caminho, pois ele está atrapalhando.

O que quero dizer é que existe uma avalanche de pastores, bispos e apóstolos que se corromperam e não fazem mais o seu papel que é cuidar de pessoas ( com as devidas exceções, pois tem muita gente séria ). Mas se este número é tão grande é porque algo está errado. O marketing evangélico não mostra estes números, eles propagam o outro de que os evangélicos estão “crescendo”. Pergunto-me como esses líderes conseguem pregar um evangelho assim, se a Bíblia mostra algo totalmente contrário? Como os tais conseguem dormir ou se, em alguns lapsos de consciência eles não repesam os seus atos?

Tenho uma pergunta maior ainda. Como seria tratado Jesus em suas igrejas, pois de acordo com a teologia destes líderes, Jesus seria um fracassado, pensem: uma pessoa que no ápice do seu ministério não tinha casa fixa, vivia de cidade em cidade viajando por conta própria, a pé, na maioria das vezes dependendo da boa vontade das pessoas. Não tinha muito dinheiro, tanto que para pagar um imposto certa vez foi utilizada uma moeda saída da boca de um peixe. Não tinha amigos influentes, ao contrário era cercado de uma dúzia de pescadores ou pessoas comuns e mendigos, leprosos, prostitutas, doentes, pobres, cobradores de impostos, ou seja, a escória da sociedade em que ele vivia. Como tratariam Paulo, que vivia situação semelhante, tomando pancadas, sendo apedrejado, fugindo, apanhando, e que ele mesmo diz que aprendeu a viver com o pouco e ainda terminou os seus dias preso antes de ser assassinado. Eles não são aquilo que tais líderes chamam hoje de vitoriosos. Será que Jesus, Paulo ou outro número sem fim de discípulos de Jesus que tiveram vida semelhante seriam chamados de vitoriosos pelos Evangélicos do Século XXI?

Flavio (FHCA ®)
Fonte: Stay Freak

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