27 de mai de 2008

O parricídio dos homens e de Deus


Com certeza você, como eu, está indignado frente à hipótese – já transformada em denúncia pela autoridade policial e aceita pelo juiz – de um pai ter assassinado a filha ao permitir que fosse asfixiada; em seguida, teria jogado-a pela janela, de uma altura de 18 metros.

Filho não é camisa, é pele. Não sou pai, mas como filho sei quão visceral é a relação entre um e outro. Por isso, o parricídio se destaca como um crime monstruoso, assim como a pedofilia entre pai e filha, como é o caso de Josef Fritzl, o austríaco que, por 24 anos, manteve a filha em cárcere privado e com ela teve sete filhos.

Diante de casos como esses a nossa condição humana é profundamente interpelada. De quanta maldade somos capazes? Não foi um homem transtornado por drogas que atirou a filha pela janela, nem era um ignorante da periferia do mundo que escravizou e abusou da própria filha. Um é bacharel em Direito na mais moderna metrópole brasileira; outro, engenheiro elétrico na Áustria.

As pessoas manifestam incontida indignação diante de casos como esses. Defronte as residências dos acusados, centenas permanecem em vigília e cobram vingança. A mídia mantém o noticiário aquecido, pois raras vezes seus veículos deram tanto ibope. Como um pai é capaz de matar a filha ou maltratar a ponto de encarcerá-la, torturá-la e estuprá-la?

“Pano”- assinalam os roteiros de teatro para indicar a passagem de um ato ao outro. Você é cristão? Acredita que Deus Pai, ofendido com os nossos pecados, assassinou o Filho na cruz? Que diabo de deus é este que exige como reparação, para aplacar a sua ira, a morte do próprio Filho? Por que esse deus não é execrado como os pais citados acima? Por que aceitar que, no Gólgota, ocorreu o mais horrendo de todos os parricídios? Como conciliar a idéia de Deus Amor com a crença no deus parricida que nos envia Jesus para que ele seja preso, torturado, humilhado e cravado numa cruz?

Há, em hermenêutica literária, o que se chama migração de sentido, que os gregos antigos denominavam dipticon. Exemplo são os vitrais de igrejas: de um lado, Moisés; de outro, Jesus. Para o observador, o significado de um se transfere a outro – Jesus é o novo Moisés. Essa migração de sentido ocorre ao se cotejar Antigo e Novo Testamentos.

O Gênesis (22, 1-18) relata que Javé exigiu de Abraão, como prova de fé, o sacrifício de seu único filho, Isaac. O patriarca subiu a montanha disposto a derramar o sangue do menino. Ao ter certeza de que Abraão não vacilaria no ato parricida, Javé teria se dado por satisfeito; segurou-lhe a mão e evitou a morte de Isaac.

No calvário, o próprio Deus teria entregue o Filho à morte pela redenção de nossos pecados. Se Deus pratica o parricídio, por que tanta indignação quando um de nós o faz? Essa ótica teológica nos incute a convicção de que somos pecadores. A culpa. Ora, deveríamos experimentar, sobretudo, a graça de ser filhos de Deus. O amor.

Os autores bíblicos projetaram em seus textos categorias próprias da cultura que respiravam. Abraão, criado no politeísmo e acostumado a prestar culto através da oferenda de primícias – das colheitas ao primogênito – descobre, no alto da montanha que, ao contrário de outros deuses, Javé não quer a morte, quer a vida. “Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar” (22, 17). Ao descobrir Javé como Deus da Vida, Abraão não sacrifica o filho.

Do mesmo modo, Jesus não foi morto pela vontade de Deus, e sim pela maldade dos homens. A cruz não é a culminância de uma tragédia cujo roteiro saiu da pena – ou da vontade – de um perverso e parricida autor divino. Jesus morre como prisioneiro político, assassinado por decisão de dois poderes que dominavam a Palestina do século I. Ousou anunciar, no reino de César, um outro reino, o de Deus. Atreveu-se a “profanar” o Templo de Jerusalém, qualificando-o de “covil de ladrões” (Mateus 21, 13), e agrediu cambistas que ali faziam negócios autorizados pelos responsáveis do culto.

O Deus de Jesus não era um déspota. Era um Pai amoroso a quem o Filho tratava por “abba” (Marcos 14, 16), palavra aramaica que significa “querido papai”. Jesus não veio para apontar o dedo e acusar-nos de incorrigíveis pecadores. Veio para nos revelar que, “como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor” (João 15, 9).

Apesar de nossos pecados, há salvação, porque Deus é Pai/Mãe amoroso e misericordioso. Fomos criados à sua imagem e semelhança e dele recebemos, em nosso espírito, o seu Espírito. Portanto, devemos amar uns aos outros, assim como somos por Ele amados.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de Mística e Espiritualidade (Garamond), entre outros livros.

Fonte: Pavablog.

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