24 de jun de 2008

Confissões de um falso, metido e impostor


O que você vê em mim? O que você acha que sou? Quem você pensa que sou?

É engraçado parar e refletir nas incontáveis vezes que já ouvi:
- Nossa! Como você é ungido!
- Eu senti o poder de Deus através de você!
- Enquanto você tocava eu pude sentir a unção de Deus vinda de você!
- Você é realmente cheio do Espírito! Um rapaz santo!
- Deus te usou pra falar comigo!
- Você poderia pregar para os jovens hoje? Ou dar aulas na Escola Bíblica Dominical para os adolescentes? Você é tão sábio!
- Gostaria que você presidisse todas as nossas devocionais! Gosto muito quando você fala!

Sabe?! Vou trazer à tona algo bastante íntimo e contudente pra mim. Uma confissão! Em todos os episódios que recebi tais elogios, não pude concordar muito com nenhum deles!

E de fato, sempre fiquei confuso a respeito! Porque sempre eram os momentos em que minha vida espiritual estava um fiasco. Em que alimentava toda sorte de pensamentos impuros! Em que as paixões carnais predominavam em meu coração! Fases da minha vida em que a Bíblia servia apenas como adorno no caminho para o culto, e no próprio culto. Tempos em que "orava", apenas nos cultos, no meio de incontinentes glossolalias e "aleluias" e "glória a Deus" fortemente bem entonados e emotivos. Era fácil orar naquele meio! Além de poder dissimular uma oração, ainda simulava uma relação com Deus da qual não usufruia!

Não estou dizendo que as intenções do meu coração eram falsas! Deus sabe que não o eram! Mas, a realidade em que eu estava, o tipo de convívio, a forma de comungar e de relacionar acabaram por deflagrar um comportamento que fosse coerente àquele ambiente social. Um comportamento que fosse conivente com todo aquele aparato religioso! Não pude evitar... Aquele meio me tornou um hipócrita! Embora, eu mesmo vociferasse contra "fariseus" e "crentes frios", e lutasse por um "avivamento da Noiva"(alguns anos mais tarde, vejo que apenas queria enquadrar a igreja no enlatado "extravagante" e "profético" da "adoração"), ainda sim, não passava de um projeto de hipócrita tão ou mais nojento que os outros!

Mas, o que se podia fazer? Eu era um "levita", ministro de louvor! Já era exemplo de santidade para os jovens! E motivo de admiração dos adultos pela minha "sabedoria" e domínio da Bíblia! Como eu poderia mostrar que aquele "super-jovem-crente", que ocupava, na medida de seus talentos, as lacunas do funcionamento da igreja, ainda não conseguira alcançar toda a "santidade" que transparecia ou lhe atribuíam? Como um jovem que estava mais na igreja do que em casa poderia simplesmente parar e falar: "Gente! Eu preciso de um tempo... Eu não sou tudo isso, estou sufocado! Acabei me tornando um hipócrita! E isso me corrói dia após dia! Minha vida com Deus têm definhado mais e mais em virtude disso!?"

Lembro uma vez que cheguei ao pastor e pedi-lhe um tempo de 30 dias no banco para poder refletir, descansar... Na verdade, minha vontade era dizer que, como jovem "crente", estava afundado na masturbação, na pornografia, "ficando" com as meninas, já não orava há muuuuito tempo, se lia a Bíblia era por causa dos serviços que desempenhava na igreja como ministro de louvor, como professor de EBD ou, quando às vezes tinha que levar a Palavra no culto de jovens, não por deleite! Mas, não poderia dizer o motivo tão explicitamente assim, porque, em vez de conseguir os 30 dias, acabaria por conseguir uma certa "excomunhão" psicológica, social e relacional por parte da igreja... porque acabaria visto como um "pecadorzinho" que não poderia estar a frente nas obras da igreja!!! E, bem... ainda não era o que queria! Embora desejasse me afastar um pouco de toda aquela responsabilidade, prezava muito por tudo aquilo! Achava ser de fato, a "obra de Deus".

Bem, a resposta que tive? O pastor entendeu que eu estava querendo boicotar a igreja e influenciar os outros integrandes do ministério de louvor a parar também, deixando, assim a igreja desfalcada e sem "louvor"... (Detalhe, eu tinha mesmo uma reputação de formador de opnião lá dentro. Para as boas e para as ruins...). Argumentei um pouco mais que achava que eu não estava preparado e tal... Mas, nada feito! Disse que eu estava preparado, que era muito sábio, ungido e tal...

Se tive coragem de discordar? Não, não tive... E mais uma vez, posei de hipócrita!!!

Foram anos do meu cristianismo vividos dessa forma... Coisas desse tipo me fizeram duvidar! Como uma pessoa poderia chegar em mim e dizer que sentiu a unção de Deus e o Espírito Santo fluindo de mim enquanto tocava bateria no momento da adoração, quando, bem sabia eu que, minutos antes de ir ao culto, ainda no banho dava vazão às fantasias lascivas? Ou quando estava simplesmente me exibindo para uma irmãzinha "gata" sentada no banco logo a minha frente? Ou mostrando minha técnica com deboche para outro irmãozinho que também tocava bateria, mas, não tinha a mesma desenvoltura que eu? O que essa pessoa sentiu? Onde acaba a emocionalismo e começa o espiritual?

É claro, que todo sábado eu me arrependia de tudo que tinha sido e feito durante a semana e pedia perdão antes de ir para o ensaio do ministério de louvor... Afinal, devia estar consagrado!!! Vou fazer mais uma instigante confissão! Eu realmente achava que no último segundo poderia apagar os vestígios de uma semana (estranho, mas media minha vida espiritual por semanas. Semana em que fui santo. Semana em que não fui santo) espiritualmente podre para os radares de alguma "profeta" no meio da reunião de oração, que por ventura acusasse: "Temos um irmãozinho aqui que está em pecado e está atrapalhando o mover de Deus na hora do louvooooor!"... Bom, sinistro? É, eu sei que é...

O que quero dizer com tudo isso? Não estou me insentando. Sei que a maior parcela de toda essa minha máscara de "super-crente" é de minha inteira falta de caráter! Mas, eu fico refletindo... Até que ponto eu fui pressionado por esse sistema religioso em que estava inserido? A indumentária própria, os termos próprios, as conversas seletas, os chavões, o status, o convívio, os princípios, a subcultura, a alienação, a pressão, o ativismo... as cobranças... Eu sei que me conduziram por uma vida cheia de falsidades! De aparências! De máscaras!

Algo me preocupa! Quantos não passam ou não passaram por algo semelhante? Quantos não conseguem ou não conseguiram se libertar disso? E o pior... Será que eu consegui?

9 comentários:

  1. falou tudo Thiago!!!!
    por isso sou sua fã!!!!
    rssss

    Abraços

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  2. Carambaaa...
    Deus realmente usou voce pra escrever issoo...hauhauahauhau...

    ...Também quero expor todas as minhas ancias, em sabias palavras, para transmitir pras pessoas e saber que há outra pessoa como elas...


    BJOOO
    (rs)

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  3. Meu irmão, meu amigo, estou sem chão. Estou angustiado e ao mesmo tempo aliviado, estou aflito e ao mesmo tempo exorcisado.
    Cara, o espirito acaba de usar vc pra falar comigo, vc escreveu o melhor desabafo que já li. Por quê? simples, eu tb sou jovem, tenho os mesmos conflitos.
    Sou lider de jovens, professor de EBD, ministro, mas tb sou jovem, falso, metido e impostor. Cara, seu texto me renovou, estou imergido em águas de um alívio inenarrável.
    Não tenho mais o que dizer, você arrebentou, isso!

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  4. Lindoélio Lázaro25 de junho de 2008 08:44

    Meu brother, este eu realmente não poderia deixar de comentar!
    Caminhamos juntos e, inerentemente, nossas vazões de orgulho também. Enquanto eu me esforçava para fugir disso tudo tinha vontade de fazer essas confissões à você, que estava sempre comigo... No entanto eu achava que devia era me espelhar em você, na sua santidade, e assim conseguir remover as máscaras e mostrar um rostinho realmente bonito e santo... Você era (como sempre será) o meu melhor amigo, mas tinha medo de ser reprimido por você...
    Quantos tantos não estão passando pelo o que passamos? Com uma vida de pecado engolida pelas aparências e o falso reconhecimento da santidade?
    Agora, me diz:
    Essas pessoas que conseguem sentir a unção de Deus e a santidade provenientes do mover do Espírito Santo em nós enquanto nós mesmos sabemos que isso é mentira, que são máscaras, encenação barata, se baseam no quê para suas crenças? - Daí a gente visualiza as vendas nos olhos das pessoas arraigadas à religião, porque a religião é mesmo assim, um mover de aparências!
    Muito bom o seu desabafo! Muitos jovens vão querer ler o seu texto para não precisarem escolher palavras para expressar os mesmos sentimentos...
    Um grande abraço!
    Amo você, maninho!

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  5. SENSACIONAL
    Flavio (www.stayfreak.blogspot.com)

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  6. www.youtube.com/watch?v=5pIn_bFwe2Y

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  7. Thiago,

    é libertador fazer essas confisões... e nem precisava ter deixado o endereço do seu blog no seu comentário, eu estou sempre estou por aqui...

    abraços

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  8. rs todos passamos por isso! são fases impostas pelo sistema religioso no qual estamos imersos! Infelizmente poucos tem a coragem de se expor sem máscaras como você amigo mas, graças a Deus, Ele está nos ensinando que mais vale assumir nossas fraquezas e deixar Seu poder operar nesse miserável homem que somos do que tentar usar máscaras e fazer a obra por nossa mãos. Quanto ao que as outras pessoas recebem mesmo quando em nosso teatro não vejo que seja simples ilusão delas mas muitas vezes Deus agindo até mesmo por meio do nosso orgulho, nossos podres, etc.

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  9. Esse é mais um exemplo do fiasco do "religare", que não religou absolutamente nada, e ainda por cima invalida o sacrifício de Cristo [I Tm 2:5], distribuindo capas e máscaras para seus "bailes dominicais".

    Concordo com a necessidade de encararmos nossa patética condição, afim de de vomitarmos todo o "guisado de lentilhas", negociado com o "usurpador"... porém o sistema lucra muito promovendo essas mutações comportamentais, gerando dissimuladores profissionais, que acabam por se distanciar cada vez mais da cruz.

    Muitos Thiago, são reféns de si mesmos, estão aprisionados em sua própria altivez e remorso, não sabem o que fazer para reverter tal quadro, logo acabam por se desinteressar em mudar, entregando-se à conformidade religiosa, tudo isso por conta do pragmatismo ritualístico de nosso século, que atribui status aos que deveriam ser servos...

    Veja o que Paulo escreve em Colossenses 2:23 à respeito do rigor ascético e da falsa humildade:
    "Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria...todavia, não têm valor algum contra a sensualidade"

    Graça em Glória!

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Fico muuuuuuuito feliz com a iniciativa de deixar seu comentário. Aqui você pode exercer sua livre expressão e opinião: criticar, discordar, concordar, elogiar, sugerir... pode até xingar, mas, por favor, se chegar a esse ponto só aceito ofensas contra mim (Thiago Mendanha) e mais ninguém, ok? rs