1 de jul de 2008

Como se pode amar

— Devo confessar-te uma coisa — começou Ivã. — Jamais pude compreender como se pode amar seu próximo. É precisamente, na minha idéia, o próximo que não se pode amar, ou somente a distância. Li, em alguma parte, a propósito de um santo, João, o Misericordioso, a quem um passante faminto e franzido de frio foi um dia suplicar que o aquecesse; o santo deitou-se com ele, tomou-o nos seus braços e se pôs a insuflar seu hálito na boca purulenta do infeliz, infectada por uma horrível moléstia. Estou persuadido de que fez isso com esforço, mentindo a si mesmo, num sentimento de amor ditado pelo dever e por espírito de penitência. Para que se possa amá-lo, é preciso que um homem esteja oculto; desde que ele mostra seu rosto, o amor desaparece.

— O stáriets Zósima falou por várias vezes disso — observou Aliócha. — Dizia também que muitas vezes, para almas inexperientes, o rosto de um homem é um obstáculo ao amor. Há, no entanto, muito amor na humanidade, um amor quase igual ao do Cristo, eu mesmo o sei, Ivã...

— Pois bem; eu, eu não o sei ainda e não posso compreendê-lo; muitos estão no mesmo caso. Trata-se de saber se isso provém dos maus pendores, ou se é inerente à natureza humana. Na minha opinião, o amor do Cristo pelos homens é uma espécie de milagre impossível na terra. É verdade que ele era Deus; mas nós não somos deuses. Suponhamos, por exemplo, que eu sofro profundamente; outro não poderá jamais conhecer a que ponto sofro, porque é outro e não eu. Além do mais, é raro que um indivíduo consinta em reconhecer o sofrimento de seu próximo (como se fosse uma dignidade!). Por que isso, que pensas? Talvez porque cheiro mal, tenho o ar estúpido ou terei pisado o pé daquele senhor!

"Além disso, há diversos sofrimentos: o que humilha, a fome, por exemplo, meu benfeitor quererá bem admiti-lo; mas desde que meu sofrimento se eleve, que se trate de uma idéia, por exemplo, só nela crerá por exceção, porque, talvez, examinando-me, verá que não tenho o rosto que sua imaginação empresta a um homem que sofre por uma idéia. Logo cessará seus benefícios, e isto sem maldade. Os mendigos, sobretudo aqueles que têm alguma nobreza, não deveriam jamais mostrar-se, mas pedir esmola por intermédio dos jornais. Em teoria, ainda, pode-se amar seu próximo, e até mesmo de longe; de perto, é quase impossível. Se, pelo menos, tudo se passasse como no palco, nos balés em que os pobres em farrapos de seda e com rendas rasgadas mendigam, dançando graciosamente, poder-se-ia ainda admirá-los. Admirá-los, não amá-los. Mas basta, a respeito".

"Queria somente colocar-te no meu ponto de vista. Queria falar dos sofrimentos da humanidade em geral, mas vale mais que me limite aos sofrimentos das crianças. Meu argumento, ficará reduzido à décima parte, mas é melhor assim. Perco com isso, bem entendido. Em primeiro lugar, podem-se amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias (parece-me, no entanto, que as crianças nunca são feias). Em seguida, se não falo dos adultos, é que não somente são repelentes e indignos de ser amados, mas têm uma compensação: comeram o fruto proibido, discerniram o bem e o mal, tornaram-se "semelhantes a deuses". Continuam a comê-lo. Mas as criancinhas nada comeram e são ainda inocentes. Gostas de crianças, Aliócha? Sei que as amas e compreenderás por que só quero falar delas. Sofrem muito, também elas, sem dúvida; é para expiar a falta de seus pais, que comeram o fruto; mas é o raciocínio dum outro mundo, incompreensível para o coração humano aqui embaixo".

"Um inocente não saberia sofrer por um outro, sobretudo um pequeno ser! Isto te surpreenderá, Aliócha, mas eu também adoro as crianças. Nota que os homens cruéis, de paixões selvagens, os Karamázovi, amam por vezes muito as crianças. Até os sete anos, as crianças diferem enormemente do homem; são como um outro ser, com outra natureza. Conheci um bandido num cárcere; durante sua carreira, quando se introduzia de noite nas casas para roubar, assassinara famílias inteiras, inclusive as crianças. No entanto, na prisão, amava-as estranhamente. Só fazia olhar as que brincavam no pátio da prisão e tornou-se amigo de um menino habituado a brincar sob sua janela... Sabes por que digo tudo isto, Aliócha? Estou com dor de cabeça e sinto-me triste".

— Estás com um ar esquisito, como se não estivesses em teu normal — observou Aliócha, com inquietação.

— A propósito, um búlgaro contava-me outrora em Moscou — continuou Ivã, como se não tivesse ouvido seu irmão — as atrocidades dos turcos e dos cherqueses em seu país: temendo um levante geral dos eslavos, incendeiam, estrangulam e violam as mulheres e crianças; pregam os prisioneiros nas paliçadas pelas orelhas, abandonam-nos assim até de manhã, depois os enforcam, etc. Compara-se por vezes a crueldade do homem com a dos animais selvagens; é uma injustiça para com estes. As feras não atingem jamais os refinamentos do homem. O tigre dilacera sua presa e a devora; não conhece outra coisa. Não lhe viria à idéia pregar as pessoas pelas orelhas, ainda mesmo que o pudesse fazer. São os turcos os que torturam crianças com um prazer sádico, arrancam os bebês do ventre materno, lançam-nos no ar para recebê-los nas pontas das baionetas, sob os olhos das mães, cuja presença constitui o principal prazer. Eis outra cena que me impressionou. Pensa nisto: um bebê ainda de peito, nos braços de sua mãe trêmula, e em torno deles os turcos. Ocorre-lhes uma idéia divertida: acariciando o bebê, conseguem fazê-lo rir; depois um deles aponta-lhe um revólver bem junto ao rosto. A criança ri alegremente, estende suas mãozinhas para agarrar o brinquedo; de repente, o artista puxa o gatilho e rebenta-lhe a cabeça. Os turcos gostam muito, segundo dizem, de coisas doces.



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O grande inquisidor é a seleção de dois capítulos,
respectivamente IV e V, livro V,
da obra
Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski

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