9 de jul de 2008

Para não perder a glória de chorar

O protestantismo brasileiro aprendeu a rejeitar a cultura brasileira. E quando o tema é música popular brasileira a rejeição é ainda mais marcante. Se não é música com temática evangélica, então sua origem é satânica. Trata-se de uma concepção teológica míope. São desconsiderados conceitos teológicos importantes como a graça comum e a imago dei.

A graça comum nos ensina que Deus derrama dádivas sobre todos os seres humanos. Ele deixa a chuva cair sobre bons e maus (Mt 5.45). A graça comum nada tem haver com a graça que salva o pecador. Trata-se das dádivas que Deus dá independente da fé. Por este prisma podemos considerar o talento de um músico, de um professor, de um médico, como dádivas divinas. Frutos da graça comum.

O conceito de “imago dei” nos ensina que os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-27). Há algo de Deus em todos os seres humanos. É claro que o pecado manchou esta imago dei original, mas não a destruiu totalmente. Assim um ser humano sem a fé em Jesus é capaz de criar coisas maravilhosas, como também é capaz de atos pecaminosos terríveis. Ele vive nesta tensão.

Diante destas duas concepções, podemos então olhar para os grandes talentos da música popular brasileira de forma menos julgadora e maniqueísta. Um disco como “Construção” (1971) de Chico Buarque só pode ser gerado pelo fato da graça comum ter atingido o compositor brasileiro. Uma obra como esta não é diabólica, muito pelo contrário, carrega dentro si algo de Deus. Só pode ser divina a inspiração para a força poética das letras, a beleza das melodias e a inventividade dos arranjos. E aqui não estou falando de salvação ou relacionamento pessoal com Deus, falo de graça comum.

Inspirado em um artigo que li do Pr. Ed René Kivitz, quero combinar música brasileira e teologia cristã. E escolho o grupo carioca Los Hermanos. Um raro raio de criatividade que brilhou no pobre cenário atual da música brasileira, envenenado por axé, pagode, funk e similares. O grupo teve uma estréia tímida com o disco homônimo de 1999. O sucesso veio com a mediana “Ana Júlia”. Foi, porém, com o segundo disco (“Bloco do Eu Sozinho”) de 2001 que eles mostraram todo o seu talento. Forjaram um caldeirão sonoro riquíssimo com rock, pop, MPB regado a um bom instrumental com metais contagiantes. O disco seguinte (“Ventura”) de 2003 comprovou de vez o absurdo talento musical do grupo. Não ocorreram mais sucessos radiofônicos como no primeiro disco, mas em termos de qualidade o grupo dava saltos fabulosos. O último disco (“4”) de 2005 decepcionou um pouco, um tanto morno demais. Aí veio a separação, porém a indelével marca do grupo já foi deixada na música popular brasileira.

E neste meu ensaio de teologia e MPB, escolho uma canção do terceiro disco do grupo: “O Vencedor”. A letra fala de pessoas que se consideram fortes e vitoriosas. Pessoas que caminham do lado oposto do autor da letra. Estes vitoriosos estão salvos de sofrer, crêem que perder é ser menos na vida e não gostam de chorar. São bravos e fortes, mas na verdade escravos. Não há espaço em suas vidas para o sofrimento, o choro, o aprender com as derrotas. São os vencedores conforme os padrões da atual sociedade.

O autor na letra diz que “Eu que já não quero mais ser um vencedor \ Levo a vida devagar pra não faltar amor”. Ele rejeita a vitória que não dá espaço para a dor, para o sofrer, para o amor. E prefere ser alguém que ama do que um bravo e inabalável vencedor. Como amar sem sofrer e chorar? Se para vencer não há espaço para tropeços e lágrimas, então não há espaço também para o amor. E por fim nosso autor conclui que “E eu que já não sou assim \ Muito de ganhar \ Junto às mãos ao meu redor \ Faço o melhor que sou capaz \ Só pra viver em paz”. Novamente rejeita a vitória dos bravos, e prefere o caminho da paz.

Podemos concluir que para o autor da letra, a vitória sem sofrimento e sentimento não é na verdade uma vitória. Do que adiante vencer sem amor e paz? Nas entrelinhas da letra podemos perceber que a verdadeira vitória passa por sofrimentos e sentimentos, e é conduzida por amor e paz. É claro que o grupo Los Hermanos não fala especificamente de teologia em sua letra, mas é possível traçar um interessante paralelo entre a letra e a teologia cristã.

O conceito bíblico de vitória também vai na contra-mão do conceito atual de vitória. A “vitória não é dos fortes, nem dos que correm melhor”, já dizia uma antigo hino evangélico. Paulo diz que quando está fraco é que ele torna-se forte (II Co 12.7-10). Jesus pregava que felizes são os pobres, os que choram, os que são perseguidos (Lc 6.20-22). Para o cristão o caminho da vitória não passa por dinheiro, poder, fama. Passa sim pelo amor de Deus que nos leva a amar o próximo. E como amar o próximo sem vivenciar sofrimento e sentimentos intensos? Como amar o próximo nos colocando como bravos e indestrutíveis? E quem trilha o verdadeiro caminho do evangelho vive em paz. Na tríplice paz descrita no Novo Testamento: com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

Viver a vitória descrita no Novo Testamento é diferente de ser um vencedor em nossa sociedade. Paulo diz que “somos mais do que vencedores, graças aquele que nos amou” (Rm 8.37). Os comentaristas destacam que o termo “amou” no original grego está em um tempo verbal que indica um evento histórico específico. Só pode ser a cruz de Cristo. No que foi para a sociedade da época a grande derrota de Cristo, na verdade foi sua vitória. E somos vencedores graças a esta vitória. Porém a cruz só pode ser vista como vitória pelos olhos da fé, pelos olhos humanos não passa de uma grande derrota.

Um verso da canção do Los Hermanos é realmente digno de nota aqui: “Olha lá quem sempre quer vitória \ E perde a glória de chorar”. No Novo Testamento o verdadeiro sofrimento é realmente glorioso. Paulo fala em sermos co-participantes do sofrimento de Cristo (Rm 8.17). O triste é constatar que muitos cristãos preferem à vitória baseada no dinheiro, poder e fama, e assim perdem a glória de chorar. “Bem aventurado os que choram”. Preferem os jatos, iates, carros do ano, malas cheias de dinheiros. É a doentia pregação da Teologia da Prosperidade sobre vitória financeira. Esta vitória eu não quero, prefiro a vitória da cruz e a glória de chorar.

Luís Carlos Batista, no blog A fé em busca de entendimento. [via Pavablog]


PS. Recentemente o brother Paulo me perguntou se conseguia ter experiências espirituais em músicas seculares... Acho que ultimamente, muito mais do que em músicas "gospildas" pelo espírito da alienação que camuflam uma pseudo "separação" do mundo... mas, que na verdade são motivados pela mesma coisita: MONEY, MONEY, MONEY... Pelo menos, os do "mundo" procuram fazer valer a arte (é claro que estão sendo produzidas muita porcaria por aí que não faço questão de chamar de música)

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