24 de ago de 2008

Podres poderes

Algo comum e usado com frequência em algumas reuniões do meio cristão é a ameaça, isso não é novidade alguma, já que é técnica antiga para manipulação e manutenção do poder em qualquer esfera organizacional. No entanto, quando se utiliza de um pressuposto relacionado a juízo de valor a coação se tornará muito mais eficaz.

Na prática o que observamos é a velha tentativa de fazer com que o outro pense de forma igual através de perspicazes e falhas frases de terror sobre o inferno, Deus e tudo o mais. Quando a pessoa que está sendo evangelizada consegue se desvencilhar de ameaças pós-morte, vira alvo de práticas mais heterodoxas: o terrorismo presente. A frase: "É melhor se converter, Deus me diz que Ele tem um plano na sua vida, olhe que se não vir pelo amor virá pela dor" é figura carimbada nessa doutrina extra-bíblica e totalmente fora de lógica. Infelizmente utilizar-se da dor por vezes não tem limites, alguém da família da pessoa "ameaçada" morre e logo um crente virá dizer que foi Deus cobrando a ida da pessoa à igreja. Para os que não conhecem a podridão da igreja, sim isso acontece, e com mais frequência do que se imagina.

A falácia do argumento é simples: se acreditamos em livre-arbítrio e em soberania divina, devemos acreditar que as duas não podem ser conflitantes, Deus seria um mero manipulador de vontades se sobreposse sua soberania. E mesmo se quisesse fazer com que sua soberania fosse maior que nosso livre-arbítrio de nada adiantaria o argumento, afinal todos seríamos manipulados de qualquer forma. Das diversas linhas de pensamento no meio cristão sobre tal questão nenhum tem condições de relevar ou ao menos levar a sério tal frase. Seguindo a argumentação podemos chegar a essa linha de raciocínio de Abu Hamid al-Ghazali, teólogo muçulmano, no livro Golden Means of Dogmatics:

"Imaginemos uma criança e um adulto no céu. Ambos morreram crendo na fé verdadeira, mas o adulto ocupa um lugar mais elevado que a criança. E a criança pergunta a Deus: 'Por que deste ao homem um lugar mais elevado?' E Deus responde: 'Ele realizou muitas boas obras'. Então a criança retruca: 'Por que me permitiste morrer tão jovem? Isso me impediu de fazer o bem'. E Deus diz: 'Eu sabia que você cresceria como um pecador; por essa razão, foi melhor que morresse como uma criança'. Em seguida, ouve-se o lamento das almas danadas, nas profundezas do inferno: 'Por que, ó Senhor, não nos permitiste morrer antes de nos tornarmos pecadores?'"

Raphael Rap, no Rapensando. [via Pavablog]

Um comentário:

  1. Pô cara, valeu pela divulgação do texto...

    O Daniel tava dizendo que se tivesse um EnBlogC no DF tu talvez iria, tu é daqui ou de GO?

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