24 de set de 2008

A igreja precisa morrer

Deus abençoe esta casa

Brian McLaren

Freqüentemente ouço alguém dizer: “Estamos explorando novas maneiras de vivenciar a experiência de igreja”. Ou: “Estamos em busca de renovação”. Ou mesmo: “Estamos desenvolvendo um culto pós-moderno. Está ficando bacana. Somos muito inovadores”. Todas estas colocações apontam na direção de mais um provável fracasso que meus colegas e eu, a despeito de nossas boas intenções, talvez amarguemos. Pois todos estes esforços para transformar a igreja deixam escapar um pequeno detalhe: qualquer mudança que levemos adiante (no estilo de música, no estilo de pregação, na utilização – ou não – de arte, velas, incenso etc) não alteram aquilo que mais precisa de mudança. Mas o que é isto que mais precisa mudar?

Alguém talvez se lembre das palavras de Jesus sobre como podemos perder as nossas vidas no processo de tentar salvá-las. Não poderia ser então que a igreja é como é em tantos lugares, não porque lhe falte esforço ou sinceridade, ou até espiritualidade (ou mesmo dinheiro, compromisso ou oração), mas porque, ao invés disto, nossos sinceros esforços, orações apaixonadas e recursos materiais estão todos orientados na direção errada – a direção da autopreservação, do auto-engrandecimento, e do auto-aperfeiçoamento? E se a missão de salvar a igreja demandar que deixemos um pouco de lado a própria igreja?

Lesslie Newbigin falava com freqüência da grande heresia do monoteísmo (em sua forma judaica, cristã e islâmica): o apego excessivo à cláusula A do chamado abraâmico enquanto a cláusula B do mesmo é convenientemente suprimida, esquecida ou ignorada. Em outras palavras: queremos ser abençoados (interessantes, vibrantes, saudáveis, abastados, sábios); queremos ser grandes (uma grande nação, uma grande denominação, uma grande congregação); e nesta direção oramos, aprendemos, investimos nosso dinheiro, lemos, ansiamos, nos comprometemos, nos sacrificamos e empregamos nossa energia. E, ao final, colhemos apenas vento. Enquanto isto, não estaria Deus ocupado buscando pessoas que também irão apegar-se à cláusula B? Pessoas dispostas a serem feitas bênção para que todas as pessoas na terra pudessem também ser abençoadas através delas? Buscamos ser abençoados a fim de sermos uma bênção para este mundo amado por Deus?

Você consegue enxergar a diferença entre estas duas compreensões de nossa missão: a renovação da igreja e o tornarmo-nos bênção para o mundo? Como um terrível resfriado, do qual nunca conseguimos nos livrar plenamente, o persistente inseto do “abençoe-me-Deus” cria o que alguns de meus amigos têm chamado de “a grande comoção”: algo que se aproxima da Grande Comissão, mas que na essência é muito diferente dela. Freqüentadores assíduos de congressos acumulam blocos e cadernos de notas que podem encher um navio daqueles de carregar petróleo. Autores como eu escrevem livros cujo peso combinado é maior do que o de nossas congregações após um almoço comunitário. Mas muito pouco muda. Pois nossos esforços estão inclinados a renovar ou fortalecer nossos sistemas atuais, os quais são perfeitamente desenhados (como Dallas Willard tem dito) para produzir os resultados que temos obtido até agora.

Se nós somos uma igreja autocentrada, é porque nossos sistemas – incluindo nossos sistemas teológicos – são perfeitamente desenhados para produzir uma igreja assim. Já se disse que o maior obstáculo para o estabelecimento do reino de Deus é a igreja que existe preocupada com sua própria existência. Não seria o motivo da doença que nos assola a nossa preocupação com a geração de melhores igrejas, ao invés da geração de comunidades mais dispostas a se tornarem bênção para o mundo? E não seriam nossos sistemas teológicos alicerçados sobre a cláusula A, a gordura responsável pela enfermidade de nossos corações?

Isto é o que realmente está acontecendo nos subterrâneos de toda essa conversa superficial acerca da “igreja emergente”. Muito mais do que cosméticos, o que está sendo tomado em consideração é o propósito mesmo, a razão de ser da igreja, do evangelho e do ministério pastoral que estão sendo repensados. Se isto não o perturba, surpreende, ou anima, é porque você não está entendendo o que está sendo dito.

Em todo lugar aonde vou, mesmo nos lugares mais inesperados (os quais incluem todas aquelas denominações equivocadas onde este tipo de coisa não deveria estar acontecendo), eu descubro igrejas e pastores enfrentando com seriedade estas profundas indagações. Estas igrejas e estes pastores desejam ser abençoados a fim de serem bênção para o mundo. Seus sonhos não param onde se encontram os muros da igreja, mas estendem-se para além deles. Pois são sonhos que tem a ver com o desejo de que o reino de Deus se estabeleça na terra como está estabelecido nos céus.

Estes são bons sinais. Possivelmente, sinais incipientes de outros sinais melhores ainda por vir. Que ironia: a igreja encontrará vida na medida em que a perder, na medida em que for capaz de doá-la.

Copyright © 2008 by Christianity Today International

Fonte: Cristianismo Hoje [via Dliver Blog]

P.S.: Quando é que a igreja aprenderá a não andar ansiosa em relação à sua própria existência? Quando é que verá que seu foco não é o próprio umbigo, mas, a necessidade que o mundo têm de Deus? E quando é que desempenhará, de fato, seu papel de embaixadora de Cristo? É preciso que a igreja morra, perca sua vida, para então ganhar a Vida e doá-la ao mundo, a exemplo da Cabeça, do Noivo, do Senhor Jesus Cristo...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fico muuuuuuuito feliz com a iniciativa de deixar seu comentário. Aqui você pode exercer sua livre expressão e opinião: criticar, discordar, concordar, elogiar, sugerir... pode até xingar, mas, por favor, se chegar a esse ponto só aceito ofensas contra mim (Thiago Mendanha) e mais ninguém, ok? rs