24 de set de 2008

Sexo com crianças por R$3,00


Todo fim de manhã de sexta-feira, logo depois da aula, Rita, Jaqueline e Paula pegam o ônibus em Planaltina de Goiás com destino a Brasília. Antes da viagem, as meninas tomam banho e trocam os uniformes por roupas de passear: saias, shorts e blusas coloridas ou de alcinha. Até domingo, a casa delas será a Rodoviária do Plano Piloto, onde vendem balas e chicletes aos passageiros que esperam nas filas. Na mesma plataforma onde ganham o sustento para as famílias, elas são exploradas sexualmente. “Por R$ 3, os moços mexem na gente”, diz Rita. Mexer é tocar no corpo das meninas e fazê-las praticar sexo oral. Ela tem 9 anos. Jaqueline acaba de completar 10 e Paula tem 11 anos.

A reportagem do Correio descobriu que a realidade dessas três crianças se tornou comum no coração da capital do país. A Rodoviária do Plano Piloto, localizada na avenida do poder brasileiro, virou palco da exploração sexual de crianças e adolescentes. São histórias de meninos e meninas que conhecem a rua ao serem vítimas do trabalho infantil ou pedindo dinheiro a estranhos. Acabam sucumbindo à pressão de aliciadores e exploradores.

Nos três dias em que moram na Rodoviária, as três amigas ficam expostas a todos os tipos de violação de direitos garantidos no Estatuto da Criança e do Adolescente. São exploradas, trabalham até altas horas da madrugada, dormem, acompanhadas das mães e de irmãos, embaixo de uma marquise cercada de lixo, de latas de solvente e de bebidas. Não têm acesso a lazer, proteção e alimentação adequadas. Apesar disso, não se enxergam como vítimas. “Gosto daqui muitos dias. Só acho ruim quando chove ou faz frio de noite”, comenta Jaqueline, estudante da primeira série do ensino fundamental.

A pressão para arranjar dinheiro faz com que a realidade dessas garotas seja tolerada pela família. Para conseguir R$ 30, é necessário vender três caixas inteiras de chiclete, o que exige muita sorte para um dia de trabalho. E, nesse ambiente social, é como se a exploração sexual não existisse sem a penetração. “Teve um dia em que o moço quis me dar R$ 5 para fazer sexo comigo, mas eu chamei o policial e disse que ia ser estuprada. O homem fugiu”, conta Paula, que não faz a denúncia quando é “só” tocada por alguém.

Além dos trocados, as meninas são exploradas em troca de pratos de comida, como canja de galinha, ou salgados vendidos nos quiosques da plataforma inferior da rodoviária. Entre os exploradores estão comerciantes da região, compradores de vale-transporte e passageiros do Distrito Federal e do Entorno.

Pista
Alimento e roupa também são moeda de troca na via que passa ao lado do Conic. Lá, as meninas são um pouco mais velhas, mas há pouco tempo era possível encontrar Flavinha, de 12 anos, que optou pelas ruas fugindo da miséria. Quando foi para a Pista, nome dado pelas garotas à prática de sexo por dinheiro ou por pequenos agrados, a menina não tinha nem beijado na boca de um namoradinho de escola. No entanto, fez sucesso com os fregueses — como as adolescentes chamam os exploradores. Depois de seis meses de exploração, ela voltou para casa, em Sobradinho.

Marcela, de 15 anos, também não precisa esperar muito pelos carros embaixo do viaduto. Pela pouca idade, provoca a cobiça dos que freqüentam a região em busca de sexo. Desde março, ela se prostitui para pagar o vício em drogas. Nos três dias em que foi vista pela reportagem, sempre a partir das 22h30, ela estava sempre com a mesma roupa. Moradora de rua, para escapar da violência doméstica, chega a sair com seis homens diferentes por noite. E, quando oferecem mais, faz sexo sem preservativo. “A gente sempre tem camisinha porque ganha dos assistentes sociais, mas os caras nem gostam de usar”, admite. Por ganha-se mais entenda-se um extra de R$ 2 ou R$ 5 no programa que rende, no máximo, R$ 15. Isso, quando recebem. “É comum levarem a gente para os matos perto do Lago Paranoá e deixarem a gente para trás sem dinheiro”, reclama Manuela, de 19 anos. Ela é explorada sexualmente desde os 16. “E a gente não pode reclamar porque apanha feio.” Entre os fregueses, taxistas, empresários e, de acordo com elas, até policiais.

Além da idade, chamam a atenção os trajes e a sujeira com que essas meninas vão para as ruas. Nem sempre há onde tomar banho e a pia do banheiro da rodoviária serve de quebra-galho. “Eles gostam assim suja mesmo, tia. Eles não ligam para nada”, analisa Marcela.

Imposto
A exploração sexual de crianças e adolescentes na região sempre foi combatida por traficantes, prostitutas e travestis. Uma menina na rua, além de dividir os tais fregueses, chama a atenção da polícia, dos assistentes sociais e da sociedade. Desde o início do ano, no entanto, uma parceria foi firmada entre os atores do submundo da rodoviária. Criou-se um imposto chamado Paga Pista. As adolescentes entregam 50% do programa aos travestis e prostitutas que estão há mais tempo na área. Com isso, o pouco dinheiro que recebem ainda é dividido. Na prática, elas são vitimizadas mais uma vez.

Pela localização, os prédios de escritório dos que pensam as políticas públicas para o país são a porta de entrada da exploração das meninas da rodoviária. Como se não bastasse, o estacionamento dos ministérios serve de motel numa mistura de economia e de segurança para os exploradores, já que é difícil entrar em um estabelecimento privado com menores de idade. “A gente fica dentro dos carros ou do lado de fora em cima do capô e é muito difícil aparecer alguém para dizer que não pode”, relata Manuela.

DISQUE 100
para fazer denúncia anônima ou buscar informações sobre abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes
*O nome de todas as personagens foi trocado em respeito à proteção dos direitos das crianças e adolescentes

Leia o restante da matéria Aqui


P.S.: Infelizmente isso é mais comum do que pensamos... Se a igreja enquanto instituição tem algum poder de mudança, mais letal que uma influência lenta de transformações pessoais no caráter de cada cristão, na sociedade, esse poder decepcionantemente não é usado em todo seu potencial! O que eu, um cara "brincando de cristão" aqui em frente ao teclado, poderia fazer para evitar que meninas tão lindas e cheias de vida se enveredem pelo caminho da prostituição? Me sinto impotente e talvez nem tão sensibilizado a ponto de atitudes radicais como sair às ruas e levá-las para... onde? E não somente isso... e a pobreza, a fome, a guerra, a violência? O que posso fazer, diante do teclado, é orar apenas? Como ajudar a mudar uma realidade que implica em toda uma performática Histórica que resultou numa sociedade tão vil e desigual? Peço desculpas por talvez não estar fazendo tudo que posso como "cristão"... mas, de uma coisa sei, não quero sair do Caminho e não quero parar de crescer em Cristo. Por enquanto sou um cristão inacabado que dia-a-dia procura alcançar a estatura de Cristo.

2 comentários:

  1. Mano, definitivamente, lamentável!
    Enquanto isso acontece, a igreja está discutindo o sexo dos anjos. Essas vidas largadas a merce da prostituição, podem ser igreja.
    Que pena que a igreja envagélica brasileira está preocupada em construir templos faraonicos.

    Forte abraço, com muita tristeza no coração, mas com muito amor na alma!

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  2. Desculpe mas só consigo postar anônimo.

    Me chamo Edson e essa situação não é novidade pra ninguém aqui em Brasília. Mas a despeito do supremo poder político, que se instala a 500 m do local, não fazer nada, ainda tem gente que faz.

    Muitas pessoas evangelizam o local à noite e tem igrejas que levam sopa e alimentos ao local. Quem for de Brasília pode nos ajudar às sextas a partir das 11 hs saindo da 611 Sul na Assembléia de Deus mas tem a Presbiteriana do Plano, a Batista Central e a Igreja do Nazareno que sempre estão por lá. Também existem grupos evangélicos independentes que trabalham nos ministérios e órgãos públicos que se reúnem para orar no local e levar a palavra de Deus.

    http://noticias.correioweb.com.br/ultimas2005/materias.php?id=2651077&sub=Distrito
    “Além do CDS, a única ajuda que os moradores da Rodoviária recebem vem das igrejas e instituições de caridade. O evangélico José Francisco de Souza, da Igreja Cristã Evangélica do Lago Sul, ajuda na distribuição dos 500 copos de sopa na Rodoviária para cerca de 150 moradores de rua, todas às quintas-feiras. “Já levamos cinco menores daqui para um abrigo que mantemos no Entorno. Lá, eles participam de oficinas de culinária, artesanato e agricultura familiar para aprender uma profissão”, conta.

    Para o chefe da fiscalização da Rodoviária, a solução para melhorar a segurança no local é uma ação integrada entre polícia, fiscalização e serviço social. “Muita coisa aqui está abandonada. Tem que acabar essa exploração de menores. Temos que ajudar essas pessoas a voltarem para suas cidades. Precisamos de mais gente aqui”, pede.

    Se quiserem ajudar podem:
    1) Divulgar e estimular ações que as Igrejas estão fazendo nestes locais que existem em todo o país.
    2) Participar colaborando financeiramente ou ativamente de grupos que já existem.
    3) Formar novos grupos. Não aconselho ir sozinho.
    4) Procurar casas de apoio que recebem os drogados e prostituídos e colaborar com doações e ações.
    5) Usar a criatividade para exercitar o IDE.

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