21 de out de 2008

Ou verdade ou revelação


Nossa idéia de verdade é a da repetição. Tomamos por verdadeiro o que nossa experiência repetidas vezes verifica. Se o fenômeno se repete sabemos o que ele é. Descrevemos, classificamos e relacionamos a ele outros prováveis fenômenos. Como o sol que nasce e se põe diariamente. É a verdade científica em sua forma mais rude. Verdade é repetição.

Não por acaso o discurso cristão sobre a Bíblia reproduz a mesma lógica. Primeiro, olhamos o texto bíblico como uma descrição exaustiva das verdades da nossa fé e conduta. Depois, a necessidade de apresentar nossas certezas sobre o que cremos obriga-nos a transformar toda e qualquer leitura da Bíblia em uma repetição. Até porque se, ao voltar ao texto, algo surpreendente se mostrar, vão-se pelo ralo da incerteza nossas presunções. E aqui já descobrimos que nossa leitura da Bíblia começa bem antes de ter o texto diante dos olhos.

Funciona assim. A princípio, tomamos a Bíblia como uma fonte inesgotável de verdades. A utopia da revelação. E a idéia torna-se ainda mais romântica, pois cada pessoa deve ler o texto bíblico sem a mediação de qualquer instituição, é o “livre exame” das Escrituras. Mas a bibliologia protestante termina por se mostrar contraditória em seus demais critérios. Afirma-se que a mensagem bíblica é inconfundível, tendo em vista sua “infalibilidade”. Suas verdades são inegáveis, sua “inerrância” o pressupõe. É um guia primaz para a vida, este afinal é o seu papel como “único padrão de conduta e fé”. Nossa confiança nela deve ser absoluta, pois Deus nada tem a dizer menos nem mais do que nela está dito. Na altura do campeonato já ficou evidente que “a fonte inesgotável” secou. Tanta certeza. Tanta confiança. Tanto padrão não pode dar espaço para o imprevisível, o novo, o surpreendente, o misterioso. A Bíblia, ou é revelação ou é padrão. Ou revela, ou certifica.

Acredito que a Bíblia deixou de ser revelação ante a exigência de certeza. Nosso esforço de apresentar o texto bíblico como fundamento para a crença obrigou-nos a incorporar à leitura a repetição. Da mesma forma que sobre os fenômenos naturais podem-se afirmar coisas com base na sua repetição controlada, sistematizamos nosso pensamento sobre Deus, harmonizamos o texto para confirmar dogmas e impomos à Bíblia uma monofonia, uma teologia unívoca. E aquele que fugir à repetição comete erro, perde-se da verdade trilhada pelos fiéis, torna-se um herege.

Entre o leitor e a Bíblia instala-se uma lente escrupulosa de dogmas. Sendo assim, nem quem lê exerce o “livre exame” e nem a Bíblia pode ser experimentada como revelação. A leitura é repetitiva pela superposição do dogma à experiência com o texto, ao fazê-la já se sabe o que deve dizer. A leitura é antecipada pelo que dela já se sabe. O que termina sendo uma leitura cega. Não se vê nada além do que a dogmática já viu.

A repetição da leitura por dogmas lança-nos ao tédio insuperável. Talvez por isso a leitura da Bíblia tenha se transformado em um exercício ascético na espiritualidade protestante. Ler a Bíblia é um dever do fiel que busca santificar-se. Porque ler a Bíblia pela repetição é o mesmo que resistir às tentações dos prazeres. Devem-se juntar à disciplina da leitura bíblica, horas de oração de joelhos e um longo tempo de jejum, exercícios sofridos que prometem depurar a alma de seus apetites desordenados! Nem de longe isso se parece com a experiência de prazer sugerida por um poeta na Bíblia. Ele a compara à doçura do mel. “Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais que o mel para a minha boca!” (Sl 119.103) A Bíblia do beato é repetição enfadonha. A Bíblia do poeta é revelação apetitosa.

Ler a Bíblia pelas lentes do dogmatismo impõe a repetição como método de apreensão da verdade e fecha os olhos para a experiência da revelação. A revelação se opõe à repetição dogmática assim como o novo se opõe à mesmice, o inesperado ao previsível, o mistério ao banal.

Mas a revelação não pode ser vista como uma categoria bíblica. Uma marca de exclusividade. O que se constitui em uma contradição. Ao tratá-la como categoria apenas afirmamos artificialmente sua legitimidade, ou seja, ela se torna digna porque dela dizemos que é a revelação completa de Deus. No entanto, se for revelação como um ponto final para a possibilidade do novo, deixa de ser. E a Bíblia deveria passar a ser tratada como o fim da revelação de Deus. Deus e as suas palavras acabariam nas páginas da Bíblia. Ela seria o silêncio de Deus. Cabendo aos leitores recuperar o que já foi dito.

A revelação precisa ser encarada como a infinita possibilidade oferecida pelo texto. A revelação não é um pressuposto, mas uma experiência com a Bíblia. Uma experiência inusitada com o que da verdade se mostra. Com um sentido da verdade. A revelação não é o que aconteceu e por isso a Bíblia se tornou confiável. A revelação é o que pode acontecer infinitamente e por isso a Bíblia é inesgotável.

A descoberta de quem experimenta a revelação na Bíblia não pode ser de uma verdade totalizadora, mas da finitude de si mesmo, de sua atordoante relatividade. Diante do Deus que nela posso ver e das possibilidades de viver que dela se desprendem me descubro como um bebê recém parido. Muita luz, muito mundo, muita vida para tão frágil criatura. Pequeno e confuso olhar para um mundo de luzes a ser explorado. Quanto mais me percebo finito, mas o infinito se revela. Quanto mais profunda minha descoberta de finitude, mais livre me percebo diante de tudo. Tanto Deus. Tanta vida. Tanto mundo. Tanto a experimentar.

A experiência com a revelação precisa ser como um breve, surpreendente e libertador descortinar da verdade. Não é ela toda. Seria o fim, seria uma prisão. Mas apenas um insight dela. Não uma repetição enfadonha do que sempre foi, mas um alumbramento de uma parte de tudo o que pode ser. Um texto e infinitas possibilidades.

Elienai Jr.

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