1 de nov de 2008

Muito além do jardim digital

’Todo internauta deve buscar confrontar o que vê na rede com outras fontes de informação, fazendo leitura crítica do que encontra nas bilhões de páginas de conteúdo.’

Em sua obra Muito além do Jardim Botânico (Summus Editorial), Carlos Eduardo Lins da Silva faz uma análise da audiência do Jornal Nacionalentre trabalhadores, lá por meados da década de 1980. Ele procurou identificar, por meio de um estudo de recepção, que impacto os meios de comunicação de massa tinham sobre as pessoas, usando como base o mais assistido telejornal brasileiro. Segundo Lins da Silva, todas as pessoas constroem representações da realidade social em suas cabeças, baseadas nas interações que elas têm com a sociedade, formando assim juízos de valores que se tornariam “verdades” – ou seja, segundo ele, “a verdade de cada um é a idéia do real que cada pessoa crê ser a mais fiel ao que efetivamente existe”.
Com base nesta premissa, além de outras, Lins da Silva fez uma crítica aos provedores de conteúdo televisivo, que por estarem intimamente ligados aos que detêm o poder econômico passavam a promover conteúdo recheado de ideologias e interesses – ou seja, uma disseminação de valores que em nenhum momento eram antagônicos aos das classes hegemônicas.
É claro que, como afirmou Lins da Silva, essa mediação ideológica ocorria também na família, na escola e na Igreja; mas, como ele mesmo destacou, “ela é bem realizada quando as pessoas não percebem”. Várias hipóteses foram levantadas pelo pesquisador para afirmar que existia a possibilidade de uma leitura crítica pelos trabalhadores pesquisados, barrando o processo de massificação do telejornal.
Mais de vinte anos depois, e já com o advento da internet consolidado na sociedade, podemos tentar analisar este conceito sob o mesmo prisma com que Lins da Silva avaliou a televisão. Assim como a “verdade” é disseminada pelos grupos de poder através da telinha, é evidente que a grande rede pode ser usada para fim semelhante – mas considerar as mesmas hipóteses pode evitar que o internauta caia na armadilha do pensamento único.

• Primeira hipótese: grau de inferência de outras fontes. Confrontar o que é lido na internet com outras pessoas e instituições sociais, permitindo criticar ou rejeitar o que se lê;

• Segunda hipótese: grau de conhecimento. Quanto maior o grau de conhecimento que o internauta tem do assunto, menor a chance de sofrer manipulação;

• Terceira hipótese: o grau de conhecimento do meio de comunicação. Quem conhece a internet e o seu processo caótico de produção de conteúdo sabe que, muitas vezes, a veracidade do que é lido pode ser questionada.

Resumindo as hipóteses listadas, todo internauta deve buscar confrontar o que lê com outras fontes de informação, aprender sobre o tema tratado e entender que a internet é um emaranhado de muitas informações e pouco conhecimento. Essas práticas são suficientes para permitir o início de uma leitura crítica do que se encontra nas bilhões de páginas de conteúdo existentes na web. É claro que, como lembrou Lins da Silva, essas três variáveis normalmente aparecem associadas a fatores demográficos como grau de instrução, nível de renda, índice de urbanização e outros mais. Por isso, não são só os usuários que deveriam se preocupar com essa questão social, mas os provedores de conteúdo também – ainda mais no caso da Igreja. Se é tão fácil manipular informações e promover ideologias pela web, fica explicado o motivo da existência de tantos sites e portais ligados, de uma forma ou de outra, àqueles que detêm o poder econômico, doutrinário e institucional dentro do arraial evangélico.
Construir um portal independente deveria ser a missão de todos que possuem a bênção de serem provedores de conteúdo. É claro que a autonomia não significa neutralidade; muito pelo contrário, pois todos possuem suas convicções, sejam elas políticas ou ideológicas. Todavia, ser independente é deixar claro quais são estas convicções. O respeito por aqueles que pensam diferente é outra característica
fundamental aos que desejam fazer diferença. Interação é fundamental; por isso, tratar bem os que investem tempo comentando posts e textos faz parte desse respeito. Hoje, pode-se avaliar a relevância de um site através das interações que ele permite. A simples avaliação da audiência ou do número de visitantes não significa nada em tempos de Web 2.0. Se você fala com alguém, mas não obtém resposta, algo está
errado. Lembre-se disso. Muitos julgam a sua audiência como um simples
número, um coadjuvante no processo de comunicação digital. Ledo engano.
Certa vez, Elis Regina falou do violonista Hélio Delmiro, que tocou com ela em shows e gravações memoráveis como Águas de março, do disco Tom&Elis, e afirmou que várias vezes diminuía o volume da sua potente voz, apenas para ouvir Delmiro tocar. Quantas vezes você já ouviu essa música e nunca reparou naquele violão divino? Sem ele, talvez o brilho da música não fosse o mesmo. Na internet, os leitores e as suas reverberações são tão ou mais importantes que o próprio conteúdo, da mesma forma que Delmiro com seu violão não era um coadjuvante das estrelas da MPB. Valorizar as interações e, mais ainda, os conteúdos que gerem não apenas polêmica, mas discussões e reflexão, é fundamental para aqueles que almejam se destacar e alcançar relevância. Então, se você possui um blog ou portal, não se esqueça de responder aos comentários deixados por seus leitores. Que neste “jardim digital”, os sites e os portais criados por cristãos dêem frutos e, através deles, o nome do Senhor seja engrandecido.

Whaner Endo no Cristianismo Hoje

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