29 de dez de 2008

Crueza histórica

gaza



Os americanos usam uma expressão tosca quando querem acabar com o lero-lero, “let´s cut the crap”. No português um pouco menos tosco seria alguma coisa como, “vamos parar com o papo furado”.

O Natal mal terminou, qualquer aura sentimentalóide esvaneceu, e o jogo bruto da história já se impõe. As notícias do dia 27 de dezembro mostram como será o novo ano. Israel bombardeou a miserável Faixa de Gaza, e mais de 120 estão mortos. Mães desesperadas procuram entre os escombros o que restou do corpo dos filhos - bombas não escolhem alvos, matam indiscriminadamente!

A complicada equação da geo-política palestina ainda contém o elemento religioso. E para minha vergonha, a tradição evangélica, da qual fiz parte, legitima o direito de expulsar, matar, dizimar os palestinos, baseando-se na posse da terra que Deus deu a Abraão há milênios. Mas diante da carnificina mundial, o que são 120 palestinos mortos? No mesmo dia, talvez o dobro morra em Darfur, Congo e Zimbábue.

A história sempre foi crua. Só no século XX, turcos trucidaram armênios; russos exterminaram milhões de russos; a Europa se afogou em sangue na I Guerra Mundial; os nazistas aperfeiçoaram técnicas de extermínio em massa; americanos jogaram duas bombas atômicas sobre a população do Japão; a Guerra Civil espanhola foi horrorosa; chineses impuseram o comunismo na base da força bruta; Vietnam, Camboja e Laos tiveram seus holocaustos; ditadores latino-americanos torturaram, assassinaram e mutilaram indiscriminadamente; em Ruanda, bastaram 45 dias para oitocentos mil serem dizimados com facão e machado.

Luzes natalinas, fogos de artifício no Réveillon e as apoteóticas aberturas olímpicas não passam de andrajos rotos, que tentam disfarçar a lepra da nossa História. Somos lobos ferozes. Criamos lógicas que legitimam a morte de inocentes – danos colaterais para o bem maior da humanidade? – invocamos deus para abençoar a nossa maldade. Escrevemos teologia para explicar a nossa sina. Mas somos piores que os chacais, predadores que espreitam mesmo quando não têm fome.

As bombas que caíram sobre Gaza me deixaram com o mesmo gosto amargo que o Tsunami há alguns anos. Aliás, let´s cut the crap, esse papo de ano novo é pura balela pra boi dormir.

Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim

(Duas horas depois, o número de mortos chegou a 205. Quatro horas depois, 220 mortos. No dia segiunte, mais de 300 mortos - 150 crianças. A carnificina continua 36 horas depois, 350 mortos. Aguardemos as más notícias.)

li no Blog do Alex Fajardo

10 comentários:

  1. Nem todas as atrocidades citadas acima tem um contexto religioso, mas o texto me fez lembrar uma frase de Blaise Pascal.

    Os homens jamais fazem o mal tão completamente e com tanta alegria como qdo o fazem a partir de uma convicção religiosa.

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  2. Fala manu!

    Que surpresa maravilhosa, blog de cara nova, em?! Ficou legal. Como já tinha dito, eu prefiro blogs com cores mais vivas e tá legalzin desse jeito.

    Forte abraço e um excelente 2009!

    Oro por vcs!

    Wil

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  3. E aê, Will...

    Que bom que gostou... há uns 3 meses que estou matutando no novo layout! Gasta muito tempo esse negócio... rs

    Grande abraço mano... Feliz 2009 pra ti também!!!

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  4. E aí, maninho!!!
    Putz, ficou muito massa agora seu blog com esse layout...
    Confesso que tinha preguiça de ler os posts por ter que ficar "firmando" as vistas naquele fundo preto, rsrsrsrsrsrsr...
    É tradição de ano novo (branco)??? rsrsr...
    Abração!

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  5. Cara, e ainda tem quem vai subir no altar e dizer que isso é da vontade de Deus, que assim que tá predestinado acontecer, justificando e até torcendo pelas atrocidades na Palestina para acelerar a volta de Jesus.

    Ótimo visual do blog...

    Abcos!!

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  6. Valeu gente, que bom que gostaram do "visu" novo =)

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  7. Nossa... gostei muito dos textos, é ótimo para refletirmos sobre como temos vivido e o que temos feito tanto para nós p/ Deus e p/ o próximo... é uma leitura bem proximar do leitor e não é nada forçado... os textos são uma benção... li muitos deles e vou continuar lendo... estou linkando seu site no meu blog...(tenha liberdade se quiser fazer o mesmo)

    Fique na Paz...
    Abç...

    http://cavernadezion.wordpress.com

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  8. E aí, M.Segundo... blz!?

    Que bom que curtiu o sítio cara... já tinha seu blog no Linko Quem Me Linka, pode ver lá...

    grande abraço, brother!

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  9. Olá Thiago,

    Li atentamente o texto e tomei a liberdade de postá-lo lá no "Pulpito", para ver se consigo iniciar uma discussão sobre o tema da "guerra" por lá.

    Já li muitos textos do Gondim, livros e os seus melhores artigos, e creio que esse texto não é uma indignação com essa guerra covarde, e sim uma defesa camuflada do Open Theism.

    Será que afirmar que Deus é um ser impotente que nada pode fazer em face das atrocidades cometidas pelos bárbaros serve de algum consolo para alguém.

    A simples idéia de que o mundo é governado por um ser não-soberano e não-onipotente enche meu coração de temor.

    O teísmo aberto retirou o Deus Onipotente descrito por Isaías, aquele que "conhece o fim desde o princípio" do cenário, e inseriu uma divindade caricata, uma criaturona grande, mas ainda contingente.

    Também detesto o cheiro de mofo dos sistemas teológicos estereotipados, mas aprendi a não rejeitar o antigo apenas por ser antigo, e a não acatar o novo, só porque é novo.

    Isso é o que eu penso.

    Abraço,

    Leonardo G. Silva

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  10. huahahaauuu "e sim uma defesa camuflada do Open Theism." ...

    Creio que o texto pode até vir pincelado com algumas influências da teologia relacional, mas dizer que a intenção por detrás de todo o texto é apenas mostrar isso, não creio. Tanto que se visitar o site do Gondim, outros textos ele esta falando sobre a guerra, acompanhando. E em outros textos ele assume abertamento a teologia relacional.

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