31 de mai de 2008

Viva o lado Coca-Cola do Evangelho


Já ouvi diversas vezes alguns sermões que exortam a pregar o Evangelho com urgência e desespero. E, é engraçado... Talvez já tenham ouvido a comparação entre Jesus e a Coca-Cola, ou entre Jesus e o McDonalds!

"É inconcebível que o mundo inteiro conheça a Coca-Cola ou o McDonalds e ainda existam pessoas que nunca ouviram falar sequer no nome de Jesus!", vociferam alguns!

Há outros ainda que pregam o Evangelho com uma urgência e um desespero como se estivessem com o prazo findado ou findando de um projeto. E acabam por se esquecerem do Evangelho e pregam qualquer outra coisa que pensem ser Evangelho de olho apenas na meta: Alívio de consciência ou alcançar uma meta, como antecipar a volta de Jesus.

Nesse processo, as pessoas tornam-se objetos e matéria-prima para uma operação tática de disseminação de idéias, valores, usos e costumes que, via de regra, não são o Evangelho. "Você conhece Jesus? Tome um folhetinho meu amigo! Jesus te ama!", pronto contabiliza aí pastor! Preguei o Evangelho para mais uma pessoa...

Não quero dizer que não deva-se entregar folhetinhos. Conheço muitos que receberam Cristo por este recurso. Mas, não está na hora de repensarmos o nosso conceito de Evangelho e, então, refletirmos em como temos concebido o IDE?

A igreja tem seguido uma tendência empresarial em vários âmbitos e se apartando da idéia de Corpo orgânico, ou organismo e se moldando na idéia de Corpo Empresarial, Corporativo ou Organização. E, resultante disso, temos testemunhado um Evangelho que é tratado como um produto e as pessoas como consumidores deste produto, no sentido mais mercantil da frase. Pastores tornam-se grandes administradores de grandes organizações ("i"grejas), com grandes patrimônios, templos, imóveis e etc. E como administradores, propagandeiam um produto, um pseudo-Evangelho juntamente com um pseudo-Jesus, que mais atende aos apelos do consumismo, capitalismo e egoísmo que à doação, a comunidade (vida comum) e ao altruísmo tão bem representados no caráter de Cristo nos Evangelhos. As pessoas deixam de ser "doentes" que precisam de médico, de "perdidas" que precisam se encontradas, para consumidores ávidos de um "Evangelho" meia boca latente em barganhas espirituais, troca de favores com Deus e, por muitas vezes, uma "revolta santa" contra Deus por causa da situação financeira. E essas pessoas se perdem mais nesse emaranhado que irreverentemente chamam de Evangelho.

Dessa forma, a urgência em pregar o Evangelho reflete uma necessidade de alimentar esse nicho de mercado criado em volta da religião, da própria Bíblia e da pessoa de Jesus. Quanto mais pessoas se converterem mais inchado torna-se esse sistema famigerado e corrupto. Dos dois lados são atendidas as necessidades materiais, superficiais, carnais e egoístas. O vendedor desse "Evangelho" espera um retorno ao pregá-lo: um ligeiro crescimento nas finanças "eclesiásticas" no mínimo. O consumidor, ou comprador desse "Evangelho" espera sanar seus problemas, sua vida financeira, sua vida amorosa, pessoal, profissional e etc. E dessa forma atende aos apelos do produto que compra. E temos o abuso espiritual, a exploração da fé e a sórdida ganância. E dessa feita, sobra um Evangelho estigmatizado, e adulterado...

Então, analisando por esse prisma, a revolta com o maior sucesso da Coca-Cola em proclamar seu produto constrange os que também querem vender um produto que serve para dar prazer somente. Em comparação com o verdadeiro Evangelho de Cristo, a Coca-Cola em nada se assemelha. Porque a mensagem da Coca-Cola não infere na total mudança e transformação de vida e de caráter como a mensagem de Cristo. Sendo, assim, uma grande desvantagem na comparação. Com certeza a mensagem doce da Coca-Cola será largamente mais aceita em detrimento de uma mensagem que confronta nossa intensa e egoísta busca pela auto-satisfação.

Contudo, se esse "Evangelho" que andam vendendo por aí continuar crescendo, logo, logo, a Coca-Cola passará a ser menos conhecida...

30 de mai de 2008

29 de mai de 2008

"Vá pentear macacos"

"Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus". Gálatas 6:17

Paulo já era um senhor de idade e cheio de responsabilidades quando escreve aos Gálatas.

A carta, diferente de todas as outras do apóstolo, já começa com uma bronca, sem passar pelo tradicional elogio que costumava fazer à cada igreja. A carta toda é um libelo contra aqueles que queriam relativizar o sacrifício de Cristo, algo como : "foi bom Cristo ter morrido...mas além disso a salvação ainda precisa de X, Y ou Z".

Claro que ele já estava cansado dessas picuinhas auto-suficientes e, ao encerrar a carta (e no trecho que ele ressalta que escreve de próprio punho), retoma o tom reprovador e avisa que não para o aborrecerem mais com essas besteiras que ele tem mais o que fazer. Não quer ser incomodado com os desvios da verdade.

Igrejas e indivíduos briguentos esquecem sempre que, além disso ser uma conduta reprovável, ainda estão tirando a atenção daquilo que realmente é importante. Jesus Cristo já tinha advertido os crentes a esse respeito quando conta a parábola da figueira estéril : se, depois de tanto tempo, não dava frutos, só lhe restava ser cortada.

Quando leio e ouço tanta gente inventando novas formas de salvação e, invariavelmente, baseadas em méritos humanos, como se algum de nós tivesse um mínimo de capacidade de sair da lama onde nos metemos, tenho vontade de usar uma frase semelhante do meu pai : "ora, vá pentear macacos" e não me aborreça.

Para esses, Cristo é apenas um detalhe do plano de salvação que inventaram. O sangue derramado significa muito pouco comparado ao poder que eles mesmos se atribuem. A respeito desse poder já fomos alertados - muitos aparecerão fazendo sinais alegando que o fazem em nome d´Ele.

Nós não trazemos no corpo as mesmas marcas que Paulo. Esse foi apedrejado, espancado, chicoteado. Passou dias e noites em calabouços. Mas trazemos a marca da Graça que Deus nos concedeu por sua soberana vontade, nos redimiu pelo sangue de Cristo - suficiente para nos salvar e, pelo Espírito do Santo nos selou.

Vamos cuidar do que é importante ou seremos apenas mais um figueira cortada.

A Exploração da Fé



Chupinhado do Lion of Zion.

27 de mai de 2008

O parricídio dos homens e de Deus


Com certeza você, como eu, está indignado frente à hipótese – já transformada em denúncia pela autoridade policial e aceita pelo juiz – de um pai ter assassinado a filha ao permitir que fosse asfixiada; em seguida, teria jogado-a pela janela, de uma altura de 18 metros.

Filho não é camisa, é pele. Não sou pai, mas como filho sei quão visceral é a relação entre um e outro. Por isso, o parricídio se destaca como um crime monstruoso, assim como a pedofilia entre pai e filha, como é o caso de Josef Fritzl, o austríaco que, por 24 anos, manteve a filha em cárcere privado e com ela teve sete filhos.

Diante de casos como esses a nossa condição humana é profundamente interpelada. De quanta maldade somos capazes? Não foi um homem transtornado por drogas que atirou a filha pela janela, nem era um ignorante da periferia do mundo que escravizou e abusou da própria filha. Um é bacharel em Direito na mais moderna metrópole brasileira; outro, engenheiro elétrico na Áustria.

As pessoas manifestam incontida indignação diante de casos como esses. Defronte as residências dos acusados, centenas permanecem em vigília e cobram vingança. A mídia mantém o noticiário aquecido, pois raras vezes seus veículos deram tanto ibope. Como um pai é capaz de matar a filha ou maltratar a ponto de encarcerá-la, torturá-la e estuprá-la?

“Pano”- assinalam os roteiros de teatro para indicar a passagem de um ato ao outro. Você é cristão? Acredita que Deus Pai, ofendido com os nossos pecados, assassinou o Filho na cruz? Que diabo de deus é este que exige como reparação, para aplacar a sua ira, a morte do próprio Filho? Por que esse deus não é execrado como os pais citados acima? Por que aceitar que, no Gólgota, ocorreu o mais horrendo de todos os parricídios? Como conciliar a idéia de Deus Amor com a crença no deus parricida que nos envia Jesus para que ele seja preso, torturado, humilhado e cravado numa cruz?

Há, em hermenêutica literária, o que se chama migração de sentido, que os gregos antigos denominavam dipticon. Exemplo são os vitrais de igrejas: de um lado, Moisés; de outro, Jesus. Para o observador, o significado de um se transfere a outro – Jesus é o novo Moisés. Essa migração de sentido ocorre ao se cotejar Antigo e Novo Testamentos.

O Gênesis (22, 1-18) relata que Javé exigiu de Abraão, como prova de fé, o sacrifício de seu único filho, Isaac. O patriarca subiu a montanha disposto a derramar o sangue do menino. Ao ter certeza de que Abraão não vacilaria no ato parricida, Javé teria se dado por satisfeito; segurou-lhe a mão e evitou a morte de Isaac.

No calvário, o próprio Deus teria entregue o Filho à morte pela redenção de nossos pecados. Se Deus pratica o parricídio, por que tanta indignação quando um de nós o faz? Essa ótica teológica nos incute a convicção de que somos pecadores. A culpa. Ora, deveríamos experimentar, sobretudo, a graça de ser filhos de Deus. O amor.

Os autores bíblicos projetaram em seus textos categorias próprias da cultura que respiravam. Abraão, criado no politeísmo e acostumado a prestar culto através da oferenda de primícias – das colheitas ao primogênito – descobre, no alto da montanha que, ao contrário de outros deuses, Javé não quer a morte, quer a vida. “Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar” (22, 17). Ao descobrir Javé como Deus da Vida, Abraão não sacrifica o filho.

Do mesmo modo, Jesus não foi morto pela vontade de Deus, e sim pela maldade dos homens. A cruz não é a culminância de uma tragédia cujo roteiro saiu da pena – ou da vontade – de um perverso e parricida autor divino. Jesus morre como prisioneiro político, assassinado por decisão de dois poderes que dominavam a Palestina do século I. Ousou anunciar, no reino de César, um outro reino, o de Deus. Atreveu-se a “profanar” o Templo de Jerusalém, qualificando-o de “covil de ladrões” (Mateus 21, 13), e agrediu cambistas que ali faziam negócios autorizados pelos responsáveis do culto.

O Deus de Jesus não era um déspota. Era um Pai amoroso a quem o Filho tratava por “abba” (Marcos 14, 16), palavra aramaica que significa “querido papai”. Jesus não veio para apontar o dedo e acusar-nos de incorrigíveis pecadores. Veio para nos revelar que, “como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor” (João 15, 9).

Apesar de nossos pecados, há salvação, porque Deus é Pai/Mãe amoroso e misericordioso. Fomos criados à sua imagem e semelhança e dele recebemos, em nosso espírito, o seu Espírito. Portanto, devemos amar uns aos outros, assim como somos por Ele amados.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de Mística e Espiritualidade (Garamond), entre outros livros.

Fonte: Pavablog.

A "Teologia" da Marcha para Jesus


Augustus Nicodemos

A IDEOLOGIA POR DETRÁS DA MARCHA

Existe uma justificativa teológica elaborada para a Marcha, que procura abonar o evento à luz da Bíblia. Os pontos abaixo foram retirados do site Marcha para Jesus (www.marchaparajesus.com.br, em 12/01/05) e se constituem na “teologia da Marcha”. Aliás, a maior parte deles se encontra exatamente debaixo do tópico “teologia” no site da Marcha. Segue um resumo dos principais argumentos, entre outros, seguidos de um breve comentário.

1. A ordem de “marchar” aparentemente foi dada mediante revelação do Espírito Santo. Diz o site:
A visão inicial da Marcha para Jesus, como qualquer outra ação em que os cristãos empreendem para Deus, está baseado [sic!] no conhecimento e na obediência. Nós acreditamos que Deus diz para nós marcharmos, e esta obediência precede uma revelação. O Espírito Santo de Deus nos conduz em toda a verdade (João 16:13) e a teologia do ato de marcharmos para Jesus emerge quando nós nos engajamos em ouvir o que o Espírito Santo está dizendo para uma Igreja atuante e batalhadora nesta terra.

Comentário: O parágrafo acima não é claro, mas dá a entender que a visão inicial foi mediante uma revelação de Deus, seguida da obediência de quem a recebeu, em cumprir a visão. O parágrafo acima sugere que a visão da Marcha foi dada pelo Espírito Santo. Quando nos lembramos que a denominação organizadora da Marcha tem um “apóstolo” (uso o termo entre aspas, não por qualquer desrespeito a esse líder, mas porque não creio que existam apóstolos hoje à semelhança dos Doze e de Paulo), imagino que “revelações” (uso o termo entre aspas não por desrespeito às práticas dessa denominação, mas porque não creio que existam novas revelações da parte de Deus hoje) devam ser freqüentes.

2. Segundo o site, a Marcha é uma declaração teológica: a Igreja está em movimento e está viva! É o meio pelo qual os cristãos querem ser conhecidos publicamente como discípulos de Jesus.

Comentário: Se esta é a forma bíblica dos cristãos mostrarem que estão vivos e que são seguidores de Jesus, é no mínimo estranho que não encontremos o menor traço de marchas para Jesus no Novo Testamento, ou para Deus no Antigo.

3. A Marcha é entendida como uma celebração semelhante às do Antigo Testamento, possuindo uma qualidade extremamente espontânea e alegre. Participam da Marcha jovens de caras pintadas, cartazes, roupas coloridas e canções vivazes. Isto é visto como uma celebração do amor extravagante de Deus para o mundo.

Comentário: Na minha avaliação, o ponto acima dificilmente pode ser tomado como um argumento bíblico ou teológico para justificar o evento. As “marchas” de Israel no Antigo Testamento, não tinham como alvo evangelizar os povos – ao contrário, eram marchas de guerra, para conquistá-los ou exterminá-los, conforme o próprio Deus mandou naquela época. Fica difícil imaginar os israelitas organizando uma marcha através de Canaã, com os levitas tocando seus instrumentos e dando shows, para ganhar os cananeus para a fé no Deus de Israel!

4. Marchar para Jesus é visto também como um ato profético que dá consciência espiritual às pessoas. Josué mobilizou as pessoas de Israel para marchar ao redor das paredes de Jericó. Jeosafá marchou no deserto entoando louvores a Deus. Quando os cristãos marcham, estão agindo profeticamente, diz o site.

Comentário: Entendo que se trata de um uso errado das Escrituras. Por exemplo: se vamos tomar o texto de Josué como uma ordem para que os cristãos marchem, por que então somente marchar? Por que não tocar trombetas? E por que só marchar uma vez, e não sete ao redor da cidade inteira? E por que não mandar uma arca com as tábuas da lei na frente? E por que não ficar silencioso as seis primeiras vezes e só gritar na sétima?

5. Marchar para Jesus traz uma sensação natural de estar reivindicando o lugar no qual os participantes caminham. Acredita-se que assim libera-se no mundo espiritual a oportunidade desejada por Deus: “Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, eu a darei ...” (Josué 1.3).

Comentário: Será esta uma interpretação correta das Escrituras? Podemos tomar esta promessa de Deus a Josué e ao povo de Israel como sendo uma ordem para que os cristãos de todas as épocas marquem o terreno de Deus através de marchas? Que evangelizem, conquistem, e ganhem povos e nações para Jesus através de marchar no território deles? Que estratégia é esta, que nunca foi revelada antes aos apóstolos, Pais da Igreja, missionários, reformadores, evangelistas, de todas as épocas e terras, e da qual não encontramos o menor traço na Bíblia?

6. A Marcha destrói as fortalezas erguidas pelo inimigo em certas áreas das cidades e regiões onde ela acontece, declarando com fé que Jesus Cristo é o Senhor do Brasil.

Comentário: Onde está a fundamentação bíblica para tal? Na verdade, este ponto é baseado em conceitos do movimento de batalha espiritual, especialmente o conceito de espíritos territoriais, e em conceitos da confissão positiva, que afirmam que criamos realidades espirituais pelo poder das nossas declarações e palavras.

7. Os defensores da Marcha dizem que ela projeta a presença dos evangélicos na mídia de todo o Brasil.

Comentário: É verdade, só que a projeção nem sempre tem sido positiva. Além de provocar polêmica entre os próprios evangélicos, a mídia secular tem tido por vezes avaliação irônica e negativa.

8. Os defensores da Marcha dizem que pessoas se convertem no evento.

Comentário: Não nos é dito qual é o critério usado para identificar as verdadeiras conversões. Se for levantar a mão ou vir à frente durante os shows e as pregações da Marcha, é um critério bastante questionável. As estatísticas que temos nos dizem que apenas 10% das pessoas que atendem a um apelo em cruzadas de evangelização em massa, como aquelas de Billy Graham, permanecem nas igrejas. Mas, mesmo considerando as conversões reais, ainda não justificaria, pois não raras vezes Deus utiliza meios para converter pessoas, meios estes que não se tornam legítimos somente porque Deus os usou. Por exemplo, o fato de que maridos descrentes se convertem através da esposa crente não quer dizer que Deus aprova o casamento misto e nem que namorar descrentes para convertê-los seja estratégia evangelística adequada.

9. Os defensores dizem ainda que a Marcha promove a unidade entre os cristãos. Em alguns lugares do mundo, a Marcha é concluída com um “pacto” entre as denominações, confissões e indivíduos, exigindo que cada um deles não faça mais discriminação por razões doutrinárias.

Comentário: Sou favorável à unidade entre os verdadeiros cristãos. Mas não a qualquer preço e não qualquer tipo de união. A unidade promovida pela Marcha, sob as condições mencionadas acima, tem o efeito de relegar a doutrina bíblica a uma condição secundária. O resultado é que se deixa de dar atenção à doutrina. Em nome da unidade, abandona-se a exatidão doutrinária. Deixa-se de denunciar os erros doutrinários grosseiros que estão presentes em muitas denominações, erros sobre o ser de Deus, sobre a pessoa de Jesus Cristo, a pessoa e atuação do Espírito, o caminho da salvação pela fé somente, etc. Unidade entre os cristãos é boa e bíblica somente se for em torno da verdade. Jamais devemos sacrificar a verdade em nome de uma pretensa unidade. A unidade que a Marcha mostra ao mundo não corresponde à realidade. Ela acaba escondendo as divisões internas, os rachas doutrinários, as brigas pelo poder e as divisões que existem entre os evangélicos. Se queremos de fato unidade, vamos encarar nossas diferenças de frente e procurar discuti-las e resolve-las em concílios, reuniões, na mesa de discussão – e não marchando.

10. Os defensores da Marcha dizem que ela é uma forma de proclamação do Evangelho ao mundo.

Comentário: A resposta que damos é que a proclamação feita na Marcha vem misturada com apresentações de artistas gospel profissionais, ambiente de folia e danceteria, a ponto de perder-se no meio destas outras coisas. Além do mais, a mensagem proclamada é aquela da denominação organizadora, de linha neo-pentecostal, com a qual naturalmente as igrejas evangélicas históricas não concordariam, pois é influenciada pela teologia da prosperidade e pela batalha espiritual.

É evidente que, analisada de perto, a “teologia da Marcha” não se constitui em teologia propriamente dita. Os argumentos acima não provam que há uma revelação para que se marche, e não justificam a necessidade de os cristãos obedecerem organizando marchas. Não há qualquer justificativa bíblica para que os cristãos façam marchas, nem qualquer sustentação bíblica para a idéia de “dar a Deus a oportunidade” mediante uma marcha, ou ainda de que, marchando e declarando, se conquistam regiões e cidades para Cristo. Se há fundamento bíblico, por que os primeiros cristãos não o fizeram? Por que historicamente a Igreja Cristã nunca fez?

Pelos motivos acima, entendo que os argumentos bíblicos e teológicos apresentados para justificar a Marcha para Jesus não procedem. Nada tenho contra que cristãos organizem uma Marcha para Jesus. Apenas acho que não deveriam procurar justificar bíblica e teologicamente como se fosse um ato de obediência à Palavra de Deus. Neste caso, estão condenando como desobedientes todos os cristãos do passado, que nunca marcharam, e os que, no presente, também não marcham.

Fonte: O Tempora, O Mores [via Práxis Cristã]

Texto de 2006 mas vale a pena ler de novo.

Carta de Bonhoeffer

Carta escrita por D. Bonhoeffer no presídio de Tegel (Berlim) para Eberhard Bethge em 21 de julho de 1944.

"Lembro-me de uma conversa que tive há 13 anos na América com um jovem pastor francês".
Simplesmente, nos pusemos a perguntar um ao outro sobre o que afinal desejávamos da vida.
Então ele disse: eu gostaria de tornar-me um santo (e eu acredito que ele o conseguiu).
Aquilo me impressionou profundamente. Mesmo assim eu me opus e disse, com efeito, que eu gostaria de aprender a crer. Por muito tempo não compreendi a profundidade deste contraste.
Pensei que pudesse aprender a ter fé, vivendo eu mesmo algo como uma vida santa....
Mais tarde eu experimentei e experimento até este momento que só vivendo plenamente neste mundo aprendemos a crer. Quando desistimos completamente de fazer algo importante de si mesmo, ou seja, ser um santo ou um pecador convertido ou um eclesiástico, um justo ou um injusto, um doente ou são. Viver plenamente neste mundo significa viver na plenitude das tarefas, dos problemas, dos sucessos e fracassos, das experiências e perplexidades, assim nos lançamos completamente nos braços de Deus, e não mais levamos tão a sério os nossos próprios sofrimentos, mas levamos a sério o sofrimento de Deus no mundo, e então vigiamos com Cristo no Getsêmani e penso que isto é fé, isto é arrependimento. Assim nos tornamos cristãos e homens. Quem se tornaria arrogante com os sucessos ou desanimado com os fracassos, tendo uma vida assim, participando dos sofrimentos de Deus?
Creio que entendes o que quero dizer, mesmo que o diga assim em poucas palavras. Sou muito grato por ter podido descobrir isso e sei que só o pude mesmo reconhecer no caminho que tive de andar.
Por isso lembro com gratidão e em paz do que passou e permaneço assim no presente....
Deus nos guie com sua bondade através dessa época, mas acima de tudo Deus nos guie até a sua presença.

Fonte: Sociedade Bonhoeffer [via Práxis Cristã]

26 de mai de 2008

Porque a religião dificulta a vida?

Mil duzentos e vinte e seis regras de comportamento, seiscentos e treze preceitos, trezentos e sessenta e cinco proibições e duzentos e quarenta e oito mandamentos. Essa era a cartilha, ou se preferirem o R.I (regulamento interno), da congregação farisaica (fariseu = guardião da lei) nos tempos de Cristo.

Ora, não foram propostos por Deus e instituídos por Moisés sobre Israel dez mandamentos? Não é o resumo desses mandamentos, e de toda a lei: amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo?
Estranho, muito estranho. Por que a religião complica tanto a vida? Por que encabrestar o homem é a ação preferida da religiosidade?

A resposta é simples e profunda, a única coisa a qual se opõe ferrenhamente a religião é o viver.
Hoje (25/5/2008) foi anunciado no/do púlpito da comunidade que componho que a partir do mês de junho começará, oficialmente, um jejum de quarenta dias em nosso ministério – até ai, estranho, por ser no ambiente que vivo, e estarrecedor por ser algo muito nobre – porém, o que a principio parecia nobre, tornou-se um absurdo. A continuação do aviso é que serão quarenta dias de jejum de televisão, abstinência de 960 horas da mídia televisiva. Estranho? Muito mais do que isso, deprimente. A proposta não consegui entender, ou melhor, entendi sim, mas prefiro não aceitar, prefiro pensar o melhor. O que eles querem é afastar o povo da TV e aproximá-lo da Bíblia, miserável religião, seus meios jamais justificarão o fim desejado.
Para a religião é mais fácil subtrair do que adicionar, proibir do que ensinar. Quando a religião adiciona, isso é aparente, na verdade ela está oprimindo. O que a religião chama de adicionar, na verdade, é oprimir, exatamente o que fizeram os fariseus, aparentemente tinham adicionado itens à lei que contribuiriam para preservação da alma em sentido horizontal, mas isso só oprimiu o povo.
A pobreza da religião está aqui, e a riqueza de Cristo está em sua proposta amplamente diferente, no reino de Deus não há horizontalidade sem verticalidade, é exatamente a revelação do Cristo crucificado, a cruz é a confirmação da proposta cristã, é o “Deus entregue ao divino” e dado ao povo, tomado pelo Pai e derramado sobre a criação.
A religião não consegue entender o que significa o amor, porque o amor é amplamente anti-religião, a religião é o antônimo da caridade.
Educar, indicar, instruir, admoestar, exortar, esses são os verbos nos quais se impregna o amor, excluir, cortar, expulsar, destruir, esses são os verbos dos quais se encharca a religião.
A vida é o alvo de destruição da religião. Pra religião viver é um absurdo, a religião não admite o existir, tão logo, a proposta de Cristo é o viver. O reino de Deus, revelado e ensinado por Cristo, determina que o viver é a mais “divina” das tarefas da vida.

Fonte: Celebrai

Você pode comer

Você pode comer livremente de todas as árvores do jardim – orienta o criador ao Homem que não foi criança, – mas [1] o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer. No dia em que comer dele [2] você certamente morrerá.

Pode ser necessário salientar que, em termos dramáticos, o enunciado da proibição (”nunca faça tal coisa”) é muitas vezes mais importante do que a ameaça complementar (”caso contrário tal coisa ocorrerá”). Para impulsionar a narrativa a proibição basta; a interdição já é conflito (isto é, atração) suficiente. Na maior parte das histórias, de Prometeu ao herói de Gremlins, o personagem só vai conhecer as conseqüências da sua transgressão depois de transgredir; ele ouvirá o “nunca faça tal coisa” sem ter verdadeira idéia do “caso contrário tal coisa ocorrerá”.

Deus, no entanto, oferece ao Homem a essencial proibição [1] juntamente com a não essencial explanação complementar [2]. O que implica Adão conhecer previamente o resultado da sua transgressão? Não seria suficiente a austera proibição?

De tudo que poderia ser dito sobre o assunto, e não é pouco, deve bastar o seguinte: a narrativa não existe para o protagonista, existe para o leitor.

E o leitor, incrivelmente, somos eu e você.

Nessa história a tensão inerente ao conflito é reforçada porque sabemos muito mais do que Adão jamais saberá; do nosso lugar na janela indiscreta vemos uma ameaça que Adão não pode ver, e esse prenúncio de tragédia aparece na história para nos tocar, não a ele. Adão talvez não saiba o que é morrer. Ele provavelmente não terá ferramentas para entender o conceito mesmo que lhe tenha sido explicado, mas – aqui está o ponto – nós temos.

Não apenas isso: como a narrativa existe para o leitor, a explanação “quando comer dele você morrerá” está ali para que saibamos sem sombra de dúvida que o propósito da história é explicar como num mundo perfeito a morte acabou encontrando o Homem.

A questão essencial, naturalmente, está em determinar se a morte é punição pela transgressão ou mera conseqüência dela. Para a teologia a morte é punição pela transgressão, pelo que a teologia é obcecada com a idéia da expiação do pecado. Para a narrativa, que não emite juízo, a morte é conseqüência mecânica da transgressão, não sua inevitável recompensa moral. Um interruptor foi lamentavelmente acionado, com resultados terríveis para todos os envolvidos. Haverá como consertar a situação e recuperar em alguma medida a honra dos protagonistas?

A teologia é obcecada com a expiação do pecado, mas a narrativa é obcecada com a expiação do pecador.

A Bíblia é narrativa.

25 de mai de 2008

A integridade do Evangelho: uma avaliação do neopentecostalismo

Elas ocupam um enorme espaço na televisão aberta, chegando a milhões de lares brasileiros todos os dias. As três mais conhecidas e salientes têm nomes parecidos — Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus.

Esses nomes apontam para objetivos ousados e ambiciosos. Seus líderes máximos adotam, respectivamente, os títulos de bispo, missionário e apóstolo. Elas são o fenômeno mais recente, intrigante e explosivo do "protestantismo" tupiniquim. Trata-se das igrejas neopentecostais, denominadas por alguns estudiosos "pentecostalismo autônomo", em virtude de seus contrastes com os grupos mais antigos desse movimento.

É difícil categorizá-las adequadamente, não só por serem ainda recentes, mas porque, ao lado de alguns traços comuns, também apresentam diferenças significativas entre si. A Igreja Mundial investe fortemente na cura divina. Seu apóstolo garante que ninguém realiza mais milagres do que ele. Seu estilo é personalista e carismático. Caminha no meio dos fiéis, deixa que as pessoas recolham o suor do seu rosto para fins terapêuticos, às vezes é ríspido com os auxiliares.

O missionário da Igreja Internacional é simpático e bonachão; parece um pastor à moda antiga. É também polivalente: prega, canta, conta piadas, anuncia produtos e serviços. Controla com rédea curta o seu pequeno império.

Todavia, nenhuma dessas igrejas vai tão longe na ruptura de paradigmas quanto a IURD. Dependendo do ângulo de análise, parece protestante ou católica. Seu carro-chefe é a teologia da prosperidade. Defende sem pejo a ética da sociedade de consumo. Seu líder está entrando na lista dos homens mais ricos do país.

Desde o início, o cristianismo tem exibido uma grande variedade de manifestações, algumas bastante inusitadas. Foi o caso do gnosticismo e do marcionismo nos primeiros séculos, das seitas apocalípticas na Idade Média e de alguns grupos resultantes dos reavivamentos nosEstados Unidos do século 19. Porém, nenhum movimento tem sido tão pródigo em termos de quantidade e diversidade de ramificações quanto o pentecostalismo contemporâneo.

No atual ambiente pluralista e inclusivista, muitos observadores vêem nessa multiplicidade um sinal de vitalidade, de dinamismo. Todavia, há sinais preocupantes nos ensinos e práticas de certos grupos. Na célebre Confissão de Fé de Westminster (1647), os puritanos ingleses colocaram a questão em termos de diferentes graus de pureza das igrejas cristãs — cap. 25.4,5 (igrejas mais puras e menos puras). Uma avaliação simpática e honesta das igrejas neopentecostais aponta para alguns aspectos que precisam ser reconsiderados a fim de que elas se tornem genuínos instrumentos do evangelho de Cristo.

O problema hermenêutico

Uma grave deficiência dessas novas igrejas está na maneira como interpretam a Bíblia. Os reformadores protestantes insistiram no valioso, porém arriscado, princípio do "livre exame das Escrituras", ou seja, de que todo cristão tem o direito e o dever de ler e estudar por si mesmo a Palavra de Deus. Acontece que muitos viram nisso uma licença para a livre interpretação do texto sagrado, o que nunca esteve na mente dos líderes da Reforma.

Eles lutaram contra uma abordagem individualista e tendenciosa da Escritura, insistindo na adoção de princípios equilibrados de interpretação que levavam em conta o sentido literal e gramatical do texto, a intenção original do autor, o contexto histórico das passagens e também a tradição exegética da igreja. Por essas razões, eles rejeitaram o antigo método de interpretação alegórica, isto é, a busca de sentidos múltiplos na Escritura, por entenderam que ela obscurecia e distorcia a mensagem bíblica.

Em muitas igrejas neopentecostais nada disso é levado em consideração. A Bíblia se torna um joguete, uma peteca lançada para lá e para cá ao sabor das conveniências. Tomam-se diferentes declarações, episódios e símbolos bíblicos e, sem esforço algum de interpretação, passa-sediretamente para a aplicação, muitas vezes de uma maneira que nada tem a ver com o propósito original da passagem.

O que é ainda mais grave, os textos bíblicos são usados de modo mágico, como se fossem amuletos ou talismãs, como se tivessem um poder imanente e intrínseco. A Bíblia é encarada prioritariamente como um livro de promessas, de bênçãos, de fórmulas para a solução de problemas, e não como a revelação especial na qual Deus mostra como as pessoas devem conhecê-lo, relacionar-se com ele e glorificá-lo.

Uma nova linguagemNa sua releitura da Bíblia, os neopentecostais por vezes criam uma nova terminologia, muito diferente dos conceitos bíblicos tradicionais. Privilegiam-se expressões como "exigir nossos direitos", "manifestar a fé", "declarar a bênção", todos os quais apontam para uma espiritualidade antropocêntrica, ou seja, voltada para as necessidades, desejos e ambições dos seres humanos, e não para a vontade e a glória de Deus.

Alguns dos temas bíblicos mais profundos e solenes redescobertos pelos reformadores do século 16 são quase que inteiramente esquecidos. Não mais se fala em pecado, reconciliação, justificação pela fé, santificação, obediência. O evangelho corre o risco de ficar diluído em uma nova modalidade de auto-ajuda psicológica, deixando de ser "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê".

O conceito de fé talvez seja aquele que esteja sofrendo as maiores distorções. No discurso de muitas igrejas do pentecostalismo autônomo, a fé se torna uma espécie de poder ou varinha de condão que as pessoas utilizam para obter as bênçãos que desejam. Deus fica essencialmente passivo até que seja acionado pela fé do indivíduo. É verdade que Jesus usou uma linguagem que aparentemente aponta nessa direção ("tudo é possível ao que crê", "vai, a tua fé te salvou"). Mas o conceito bíblico de fé é muito mais amplo, a ênfase principal estando voltada para um relacionamento especial entre o crente e Deus. Ter fé significa acima de tudo confiar em Deus, depender dele, buscar a sua presença, aceitar como verdadeiras as declarações da sua Palavra. O objeto maior da fé não são coisas, mas uma pessoa — o Deus trino.

Fundamento questionável

A teologia da prosperidade, que serve de base para boa parte da pregação e das práticas neopentecostais, é uma das mais graves distorções do evangelho já vistas na história cristã. Essa abordagem teve início nos Estados Unidos há várias décadas, sob o nome de "health and wealth gospel", ou seja, evangelho da saúde e da riqueza.

No neopentecostalismo, essa se torna a principal chave hermenêutica das Escrituras. Tudo passa a ser visto dessa perspectiva reducionista acerca do relacionamento entre Deus e os seres humanos. O raciocínio é que Cristo, através da sua obra na cruz, veio trazer solução para todos os tipos de problemas humanos. Na prática, acaba se dando maior prioridade às carências materiais e emocionais, em detrimento das morais e espirituais, muito mais importantes.

Tradicionalmente, as maiores bênçãos que o homem podia receber de Deus incluíam o perdão dos pecados, a reconciliação, a paz interior e, num sentido mais amplo, a salvação. Dentro da nova perspectiva teológica, as coisas mais importantes que Deus tem a oferecer são um bom emprego, estabilidade financeira, uma vida confortável, felicidade no amor e coisas do gênero.

É uma nova versão da tese do sociólogo alemão Max Weber, segundo o qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência da sua eleição. Os problemas da teologia da prosperidade são diversos: (a) falta de suporte bíblico — a Escritura aponta na direção oposta, mostrando a armadilha em que caem os que se preocupam com as riquezas; (b) empobrecimento da relação com Deus, concebida em termos interesseiros e mercantilistas; (c) incentivo a atitudes de individualismo, egocentrismo e falta de solidariedade; (d) tendênciapara a alienação quanto aos problemas da sociedade.

Conclusão

O neopentecostalismo representa um grande desafio para as igrejas históricas e mesmo para as pentecostais clássicas. Esse movimento tem encontrado novas formas de atrair as massas que não estão sendo alcançadas pelas igrejas mais antigas. Nem todos os grupos padecem dosmales apontados atrás. Muitas igrejas neopentecostais são modestas, evangelizam com autenticidade e não se rendem à tentação dos resultados rápidos, dos projetos megalomaníacos e dos métodos incompatíveis com o evangelho. O grande problema está nas megaigrejase seus líderes centralizadores, ávidos de fama, poder e dinheiro. Estes precisam arrepender-se e voltar às prioridades da mensagem cristã, buscando em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, para que então as demais coisas lhes sejam acrescentadas.

Alderi Souza de Matos, na revista Ultimato.[ via Pavablog]

O mundo vai sofrer com a falta de comida

Deu na Veja desta semana: "O preço dos alimentos disparou, e o aumento médio no mundo passa dos 80%. A crise atual, a pior dos últimos trinta anos, é um grito de alerta sobre uma questão que pouca gente ousa discutir: o planeta mal consegue alimentar 6,7 bilhões de bocas hoje. O que ocorrerá em 2050, quando seremos 9,2 bilhões de terráqueos? A comida será cara e rara como nunca. ...

"A fórmula macabra é a seguinte: a cada cinco segundos morre uma criança no mundo em decorrência de problemas provocados pela carência de calorias e proteínas mínimas para a sobrevivência. É dramático que a humanidade, em meio a progressos estupendos como a capacidade de escavar o solo de outro planeta em busca de vida pregressa, ainda seja assombrada pelo fantasma da fome – que ceifa a vida presente e futura na Terra. ... A situação ... ficou ainda pior. O trigo, o milho, o leite, o açúcar, o ovo, o frango – tudo subiu. Em alguns casos, como o do arroz, esse cereal que alimenta metade dos habitantes do planeta, o preço dobrou em um ano. Pela primeira vez na história, o custo global de importar alimentos passará de 1 trilhão de dólares.

"Os pobres do mundo estão inquietos. Na Somália, a polícia dispersa multidões famintas a tiros. Na Indonésia, com quase metade de seus 230 milhões de habitantes vivendo na pobreza, cada aumento de 10% no preço do arroz joga 2 milhões de pessoas na miséria absoluta. No Haiti, os preços altos derrubaram o governo. Na Malásia, país nem tão pobre assim, o governo andou balançando. No México, protestos de rua contra o preço das tortillas assustaram as autoridades. Na Tailândia, um dos celeiros de arroz do planeta, há mercados limitando a compra do produto por cliente. Na Argentina, assolada pelo populismo da presidente Cristina Kirchner, os panelaços voltaram a ser ouvidos, com produtores rurais reagindo contra medidas do governo e consumidores irritados com a escassez nos supermercados. Existem situações críticas no Paquistão, no Egito, no Senegal. Em Gana, Bangladesh, Mianmar. Há fome na Coréia do Norte, na Etiópia. No Brasil, o quadro é mais confortável, mas um pedaço da crise mundial chegou ao país, com o preço dos alimentos ultrapassando a média da inflação. No Palácio do Planalto, estuda-se aumentar em 5% o benefício concedido pelo Bolsa Família para compensar a alta nos preços.

"'Estamos vivendo a pior crise dos últimos trinta anos', alarma-se o economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Colúmbia, em Nova York, e conselheiro especial de Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas (ONU). E não vai melhorar. Um relatório da FAO, a entidade da ONU que cuida dos alimentos e da agricultura no mundo, acabou de sair do forno em Roma, trazendo previsões sombrias. O documento, divulgado na quinta-feira passada, diz que os alimentos não voltarão a ser baratos como antes. A comida mais cara, portanto, chegou para ficar. É uma situação que deixa ainda mais vulneráveis 850 milhões de pessoas ao redor do planeta, uma massa cronicamente subnutrida que vive sempre sob o espectro da fome. Antes, uma análise elaborada por uma equipe do Banco Mundial já fazia previsões parecidas. Dizia que os preços ficarão altos até 2009, quando então começarão a cair. A queda, porém, não será acentuada, e os preços ficarão 'bem acima' do nível registrado em 2004. O Banco Mundial calcula que a situação ficará como está, ameaçadora e preocupante, pelo menos até 2015. E em 2015 a população mundial terá cerca de 600 milhões de bocas a mais para alimentar. É o equivalente a quase três Brasis a mais. Vai dar? ...

Detalhe: "Se fosse possível recuperar um quarto de todo o desperdício dos ricos, daria para alimentar 20 milhões de pessoas a cada dia."

E a matéria prossegue: "A crise atual decorre de uma combinação de causas: colheitas ruins, especulação de preços, aumento excepcional do barril de petróleo e a explosão dos biocombustíveis. Mas o que ajudará a perpetuar o problema é o aumento do consumo de alimentos, sobretudo na China e na Índia, as locomotivas asiáticas que, juntas, têm mais de um terço da população mundial. A China, em especial, tem peso fenomenal. Se cada chinês comer um frango a mais, dentro de cinco anos explodirá o mercado de milho, a ração básica da ave. 'O frango é um milho com asa', brinca o professor Mauro de Rezende Lopes, economista da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro. 'E, quanto maior o poder aquisitivo, mais carne as pessoas consomem.' Com a economia crescendo a 10% e o consumo de calorias aumentando 20%, a China, essa terra onde aconteceram mais de 1 500 ondas de fome na era cristã, está formando uma imensa classe média – que quer comer carne. O problema é que, para cada quilo de carne que a vaca engorda, são necessários 8 quilos de grãos para alimentá-la. Considerando que boa parte é gordura e osso, a conta muda: para cada quilo de carne boa vão 13 quilos de grãos. É preciso produzir isso tudo."

Outras pesquisas já apontaram o vegetarianismo como fator atenuador da crise de alimentos e, por conseqüência, da crise ambiental. Mas, infelizmente, os emergentes querem carne...

Lamentavelmente, essa situação crítica já estava prevista (e, felizmente, terá fim logo): "Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá fomes e terremotos em vários lugares" (Mt 24:7).

Fonte: Criacionismo

24 de mai de 2008

NÃO PRECISAMOS E PRECISAMOS SIM

NÃO PRECISAMOS DE MAIS UM FERIADO RELIGIOSO EM NOSSO PAÍS

Precisamos sim, fazer de cada dia, dia de serviço à Deus e às pessoas.

NÃO PRECISAMOS SER O MAIOR PAÍS EVANGELICO DO MUNDO

Precisamos sim, ser um país justo que valorize às pessoas de um modo que a imagem e semelhança do Criador seja restaurada em cada cidadão brasileiro

NÀO PRECISAMOD DE DECLARAÇÕES PROFETICAS

Precisamos sim, de pessoas que vivam de tal modo a FÉ CRISTÃ, que resulte em transformação da realidade brasileira.

NÃO PRECISAMOS DE MARCHAS DE MILHÕES EM UM SÓ DIA

Precisamos sim, de milhões de pessoas em cada dia servindo com amor ao outro em todos os lugares deste país e do mundo.

NÃO PRECISAMOD DE “MONTANHAS DE SAL” SOB HOLOFOTES

Precisamos sim, do sal diluído de um modo que desapareça entre milhões de pessoas, mas, que o resultado seja uma sociedade com sabor de dignidade.

NÃO PRECISAMOS DECLARAR QUE JESUS É DONO DE ALGO

Precisamos sim, viver desejando ser tão parecido com Ele, que fique claro para todos que pertencemos à Ele.

NÃO PRECISAMOS DE COREOGRAFIAS SANTIFICADAS DE PALCO

Precisamos sim, de gente que vive no chão da vida, sob quaisquer circunstancias, o evangelho e todas as suas implicações.

NÀO PRECISAMOS IMPACTAR PELAS ESTATISTICAS

Precisamos sim, impactar pela solidariedade, que nos impulsione a radicalizar no amor, na graça, no perdão, no serviço ao outro.


Carlos Bregantim - Graça & Cia [via Infinita Highway]

23 de mai de 2008

Entorpecimento

Na Revista Enfoque do mês de Abril/2008 foi publicada uma reportagem intitulada: “Uma igreja desviada”. A reportagem comenta sobre um número que está crescendo assustadoramente no Brasil: o número de pessoas que deixam as igrejas evangélicas, os chamados coloquialmente “desviados da fé”. Os números me impressionaram, pois, de acordo com a revista estima-se que existam entre 30 e 40 milhões de pessoas nestas condições. Se levarmos em conta que de acordo com o último censo a quantidade de evangélicos no Brasil era cerca de 27,2 milhões, as tais “ovelhas perdidas” já superaram este número. Mas o que me assusta realmente não são os números, mais os principais motivos que levam as pessoas a se afastarem das igrejas. Há os mais diversos, mas de acordo com a reportagem os principais são: Brigas internas, legalismos, decepções com a liderança, sensação de abandono, falsas profecias e promessas de prosperidade não concretizadas. (como diria um amigo meu: “bem coisa de crente!”).

Sou sincero a dizer que me faltam palavras, tamanha a minha indignação, pois este é o reflexo das nossas intocadas igrejas brasileiras. Por isso o cristianismo caiu em descrédito para muitos, pois evangelismo não é mais falar de Jesus e a sua proposta de vida e amor, mas sim resolver charlatanizadamente os problemas das pessoas. As pessoas não vão mais a igreja para adorar e cultuar a Deus, para ter um momento de paz em comunhão com outros cristãos, mas transformam o lugar de adoração em um local onde Deus vai atender todos os seus caprichos, todos os seus mimos. Esta é a ilusão que plantam em suas cabeças. Evangelizar? Não é mais falar em “..quem perder essa vida, ganhá-la-á..” mas sim “você é filho de Deus e tem o direito a ter..., possuir, ...exigir...” .

O óbvio acontece, a grande maioria não recebe o que queria, pois o cerne da mensagem cristã não são bênçãos ou curas, mas sim ser um instrumento de justiça em um mundo de injustiças. O verdadeiro poder do Evangelho não é o que ele pode fazer para mim, mas sim o que ele representa pra mim, quais valores absorverei durante a minha vida para ser um verdadeiro cristão, que anda na contramão do mundo, pois no mundo fala-se em consumismo, em egocentrismo, elitismo e em medida de valores por aquilo que um individuo possui, mas os valores cristãos falam em amor, justiça, coletividade, amor ao próximo, ser um abençoador e medir os valores das pessoas por aquilo que elas realmente são. Quando não recebem ( óbvio, pois não buscaram o cerne do cristianismo ) revoltam-se, decepcionam-se com Deus e finalmente abandonam as igrejas. Serão pessoas que provavelmente desenvolverão um sentimento contrário tão grande, que não terão uma segunda chance.

Brigas internas, legalismo, sensação de abandono, falsas profecias? O que falar sobre isso? Aqueles que estão na liderança também se esqueceram do cerne do cristianismo? Onde estão os pastores que deveriam estar cuidando das pessoas? Ah! Já sei! Devem estar fazendo algum curso de marketing evangélico para fazer sua igreja “crescer” mais, pois a arrecadação está baixando, ou ainda criando estratégias políticas para que ele não seja derrubado, ou fazendo planos para tirar alguém do caminho, pois ele está atrapalhando.

O que quero dizer é que existe uma avalanche de pastores, bispos e apóstolos que se corromperam e não fazem mais o seu papel que é cuidar de pessoas ( com as devidas exceções, pois tem muita gente séria ). Mas se este número é tão grande é porque algo está errado. O marketing evangélico não mostra estes números, eles propagam o outro de que os evangélicos estão “crescendo”. Pergunto-me como esses líderes conseguem pregar um evangelho assim, se a Bíblia mostra algo totalmente contrário? Como os tais conseguem dormir ou se, em alguns lapsos de consciência eles não repesam os seus atos?

Tenho uma pergunta maior ainda. Como seria tratado Jesus em suas igrejas, pois de acordo com a teologia destes líderes, Jesus seria um fracassado, pensem: uma pessoa que no ápice do seu ministério não tinha casa fixa, vivia de cidade em cidade viajando por conta própria, a pé, na maioria das vezes dependendo da boa vontade das pessoas. Não tinha muito dinheiro, tanto que para pagar um imposto certa vez foi utilizada uma moeda saída da boca de um peixe. Não tinha amigos influentes, ao contrário era cercado de uma dúzia de pescadores ou pessoas comuns e mendigos, leprosos, prostitutas, doentes, pobres, cobradores de impostos, ou seja, a escória da sociedade em que ele vivia. Como tratariam Paulo, que vivia situação semelhante, tomando pancadas, sendo apedrejado, fugindo, apanhando, e que ele mesmo diz que aprendeu a viver com o pouco e ainda terminou os seus dias preso antes de ser assassinado. Eles não são aquilo que tais líderes chamam hoje de vitoriosos. Será que Jesus, Paulo ou outro número sem fim de discípulos de Jesus que tiveram vida semelhante seriam chamados de vitoriosos pelos Evangélicos do Século XXI?

Flavio (FHCA ®)
Fonte: Stay Freak

O que?

"Eu declaro que nunca quebrarei minha aliança com o Apóstolo Estevam e com a Bispa Sonia. Eu profetizo que embaixo de cobertura apostólica vou viver a extensão da autoridade deles, em nome de Jesus. Amém!!"

oração que será feita no quarto dia do "Jejum de Ester" nas igrejas Renascer em Cristo. Cada "oração profética" deve ser repetida três vezes ao dia. A campanha começa amanhã e (24/5) e termina em 21/6. No encerramento, os participantes receberão uma coroa em miniatura como "símbolo profético".

fonte: iGospel [via Pavablog]

PS. Pára, pára, pára... Dá uma olhada nisso: Jejum de Ester. Anem! Não sei nem o que dizer...

O caso do mestre ausente

Do jeito que as coisas hoje se encontram, temos, de um lado, certo tipo de "fé em Cristo" e, de outro, a vida de abundância e obediência que ele é e oferece. Mas não temos uma ponte eficaz da fé à vida. Alguns conseguem fazer essa integração. Mas quando isso acontece, o fato é encarado como golpe de sorte ou acidente, não como parte normal e natural da própria boa nova. A oração também parece "funcionar" para algumas pessoas. Mas quem é que sabe como ou por quê? E, seja como for, não se exige eficácia na oração - nem para ir para o céu após a morte ou para dedicar à causa da libertação.
Aceitamos que a nossa religião efetivamente se afaste de Jesus como amigo e mestre, e da nossa existência cotidiana como santa vocação ou compromisso com Deus. Alguns trocam a vitalidade diivina e a integridade pessoal pela conduta ritual; outros podem se contentar com uma série isolada de "experiências", em lugar da transformação do caráter.
Bem no âmago dessa alienação está o fato de o mestre Jesus estar ausente das nossas vidas. Estranhamente, parece que nos dispomos a aprender a viver com praticamente qualquer pessoa, menos com ele. Acreditamos sem questionar que as "últimas pesquisas" têm mais a nos ensinar sobre o amor e o sexo do que Jesus, e o Louis Rukeyser sabe mais sobre como se relacionar com a família e os colegas de trabalho, e Carl Sagan é melhor autoridade sobre o cosmos. Perdemos totalmente a noção da diferença entre informação e sabedoria, e os nossos atos revelam isso.
As pessoas a quem espontaneamente recorremos em busca de "informações" sobre como viver mostram como verdadeiramente nos sentimos e em quem realmente depositamos confiança. E nada demonstra mais intensamente a que ponto chegamos na nossa mecânica suposição da irrelevância de Jesus como mestre para a nossa vida "real".

A conspiração divina, Dallas Willard, p. 75-76

Beautiful Day

“U23D” é o primeiro registro de um show de rock utilizando tecnologia de filmagem para, como o título deixa claro, exibição em três dimensões. As imagens foram feitas durante a mais recente turnê dos irlandeses pela América do Sul, em 2006, com trechos do show realizado em São Paulo, mas com mais ênfase no da Argentina.

A exibição do filme nas salas do circuito IMAX, com sua tela de 20 metros de altura por 26 metros de largura, casa bem com a megalomania tão característica do vocalista Bono. Antes do início da sessão, a caprichada apresentação do equipamento de som do cinema, é a melhor parte. Segundo o site da distribuidora de "U2 3D", o filme deve ser exibido no Brasil no mês de outubro - são citados os estados de Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

Assistir a “U23D” nesse ambiente é impressionante. Usando os grandes óculos especiais e encantados com o efeito proporcionado, no início da apresentação há muitas risadas e algumas esticam a mão e tentam tocar nos objetos. Uma ingenuidade que lembra os relatos das primeiras sessões de cinema da história.

Nos primeiros minutos, nos planos feito do meio da platéia, tem-se a nítida impressão de que as pessoas estão levantando o braço na sua frente, fazendo você mexer a cabeça pra desviar, como se estivesse num show. Produzir um efeito assim no espectador não é pouca coisa.

A massa de gente pulando filmada de cima, a profundidade dos planos, o volume da luz, os closes, as novas possibilidades de se utilizar fusões, tudo isso conta a favor. Nos melhores momentos, é se como se estivesse vendo ao vivo, principalmente nos enquadramentos mais próximos ao tamanho real das pessoas e objetos, como os feitos das laterais do palco.

Cenas gravadas no Estádio do Morumbi, em São Paulo, nos dias 20 e 21 de fevereiro, mostram o público recebendo o sucesso "Beautiful day". Nessa filmagens, optou-se por usar as câmeras de tomadas mais abertas.

Imagens de profundidade

Muitas vezes, em um show "de verdade", quando se está assistindo de longe, parece mesmo que se está vendo uma tela. Nesse sentido, o efeito 3D é parecido, pois as imagens tem profundidade que emulam essa sensação. A estrada até algo menos artificial ainda é longa. Os movimentos de câmera atrapalham o efeito, closes não funcionam bem e gráficos vetoriais ainda produzem um resultado mais realista.

Atualmente, o desconforto causado pelos óculos não é maior do que o fato de que você não pode mover a cabeça e ver o que quiser. É preciso manter o olhar fixo no centro da tela e permanecer passivo, recebendo as imagens como e na ordem em que são apresentadas.

Para tornar a experiência mais ativa, seria preciso inserir o expectador [sic] num verdadeiro ambiente de três dimensões, com visão 360°, podendo ficar no meio do palco e escolher o que ver. Virar para trâs [sic] para ver o baterista, para o lado e ver o guitarrista. Isso aplicado a filmes de ficção pode revolucionar a maneira de se fazer e se atuar para o cinema.

Em vez do telespectador ser guiado, ele mesmo escolherá o que acompanhar. Voltando a música, no dia que essa tecnologia estiver suficientemente disseminada, nenhuma apresentação será exclusiva. E já se fala em shows holográfico, projetados simultaneamente em diversos lugares e tornado possivel turnês feitas em apenas um dia.

Enquanto esse dia não chega, é melhor reservar o seu ingresso para aquele show imperdível. Afinal, de qualquer maneira, não há nada como ver sua banda favorita bem de perto. De preferência, em carne e osso.

fonte: G1 [via dotGospel]via Pavablog

22 de mai de 2008

Por um Estado laico de fato...


Parada reforçará tom político e aprovação do PL 122/06


(PORTAS ABERTAS) A Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT) em São Paulo será marcada este ano por um tom político em favor da aprovação do PLC 122/06. Atualmente o projeto aguarda deliberação da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado. Para reforçar a pressão sobre os senadores, os organizadores da manifestação que acontece domingo, a partir do meio-dia, na avenida Paulista, pretendem levantar um clamor popular. A parada, que reuniu 3,5 milhões de pessoas na última edição, vai protestar contra a interferência da religião nas decisões políticas e jurídicas do País. Uma das principais bandeiras levantadas pelo tema "Homofobia mata! Por um estado laico de fato" é a aprovação do Projeto de Lei 122/06, da Câmara dos Deputados.


"A Parada é política", afirma o presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT-SP), Alexandre Santos. "Existe também uma festa, mas o tom é político." O projeto criminaliza a homofobia e pune quem discriminar homossexuais em espaços públicos, privados, no ambiente de trabalho ou impedir a expressão de afetividade entre pessoas do mesmo sexo. Na prática, também criminaliza a pregação de trechos da Bíblia, do Alcorão e da Torá. Alexandre Santos diz que a parada pode sensibilizar deputados e senadores para que assegurem os direitos dos gays. "O Congresso não pode ser confundido com o púlpito de uma igreja", afirma ele. "A lei deve servir a crédulos e incrédulos. O Estado precisa ser o maior protetor dos nossos direitos." O PL 122/06 já foi aprovado na Câmara, mas teve a votação adiada no Senado na última quinta-feira (15 de maio) por pressão de líderes religiosos. [Fonte: www.alcntocias.org] via Celebrai


Se parássemos para pensar, um Estado totalmente laico deveria abrir mão desse feriadão tão bom...

Liberdade sempre

Pelo menos para uma coisa os políticos corruptos servem: inspirar a arte.

No início da década de 1980, a política da Dama de Ferro Margaret Thatcher deu a Alan Moore a linha para a criação de V de Vingança. Vinte e tantos anos depois, é George W. Bush o alvo preferido dos criadores. Curiosamente, o mesmo texto de Moore, adaptado e modernizado pelos irmãos Wachowski (Matrix), continua servindo como condutor das críticas atuais.

Dito isso, fica fácil entender os motivos de tanta paulada na superprodução da Warner Bros. por parte de veículos notadamente de direita, reacionários até. Afinal, o filme exalta um subversivo, o terrorista conhecido como Codinome V (Hugo Weaving, cujo rosto nunca aparece). E para aqueles que mantêm o povo nas rédeas através do medo, da manipulação, nada mais perigoso.

Aplausos para a Warner Bros., que tem colocado longas-metragens contestadores e corajosos como V de Vingança, Syriana e Boa noite e boa sorte com regularidade nos cinemas. Não que V possa ser comparado às pequenas obras-primas estreladas por George Clooney... mas por tratar-se de um tipo de filme mais acessível ao público que os outros, a mensagem, comum a todos, tem mais abrangência. Afinal, a superprodução tem público infinitamente maior.

Claro que não esperamos aqui que os cidadãos comecem a explodir prédios públicos e fazer justiça com as próprias mãos como o mascarado personagem de V de Vingança. A essência da idéia definitivamente não é essa. Os Wachowski também sabem disso e sua opção pela tradução menos radical e extremada da HQ de Moore - especialmente seu desfecho - funciona a contento na tela grande, apesar de polêmica aos olhos puristas.

A história é jogada alguns anos no futuro, em 2020. O cenário, porém, segue o mesmo, a Inglaterra. Um ditador fascista, Adam Sutler (John Hurt, hitleresco), rege o país utilizando táticas de repressão e instruções televisionadas. Ele comanda a mídia e suas forças de segurança, lideradas por um sujeito chamado Creedy (Tim Pigott-Smith), têm como rotina seqüestros, torturas e assassinatos daqueles que se opõem ao regime. A censura impera e se estende por todas as formas de manifestação cultural - das artes à religião.

Mas chega o dia 5 de novembro e, com ele, o aniversário da conspiração de 1605 na qual Guy Fawkes tentou explodir o parlamento inglês e destituir o rei James I do trono. A data, um feriado burlesco, espécie de Malhação do Judas aos bretões, é comemorada de forma explosiva pelo terrorista V, ao som de bombas e da Abertura 1812 de Tchaikovsky, quando ele inicia seus ataques ao governo de Sutler, retomando a idéia original de Fawkes.

Na mesma noite, V salva uma jovem chamada Evey (Natalie Portman, com a competência habitual) momentos antes de um estupro por homens de Creedy. Sua ligação com a carismática figura é imediata e seus caminhos se cruzam novamente na estação de TV na qual ela trabalha. Lá, V pede aos londrinos que se levantem contra o regime, prometendo que ele terminará no próximo 5 de novembro - um ano depois - o trabalho iniciado por Fawkes séculos antes. De seu lado, Sutler começa uma caçada ao terrorista, mas já é tarde. Um rasgo de mudança já se tornou possível para os cidadãos oprimidos.

Alguns fãs de quadrinhos já começaram a manifestar seu desapreço ao filme. Dizem que há mudanças demais em relação à obra original e todo o esperneio de sempre. O que não percebem, porém, é que nem toda mudança é ruim. Há personagens que ganharam mais profundidade no filme, como a própria Evey, o investigador Finch (Stephen Rea) e o apresentador de TV Gordon Dietrich (Stephen Fry), cuja cruzada pessoal explora temas próximos a um dos irmãos roteiristas e me pareceu bastante relevante.

Mas deixando um pouco a história de lado, V de Vingança é igualmente bem-sucedido tecnicamente. Havia um certo temor de que o diretor James McTeigue fosse mero marionete para os donos do filme, os Wachovski. Não é o caso. Apesar de algumas cenas nas quais o estilo dos irmãos é particularmente visível - especialmente nas seqüências de ação, uma das quais é bastante exagerada - o filme é bastante contido.

Enfim, V tem um visual perfeito, atuações marcantes e uma história a ser pensada. Não é um filme a ser esquecido e deve gerar opiniões e debates. Basta boa vontade para que tiremos a sua máscara de blockbuster hollywoodiano e olhemos seu cérebro e alma.

A hora é certa para uma revolução, canta Mick Jagger nos créditos finais, na clássica porretada Street Fighting Man. Ele não poderia estar mais correto.

Fonte: Omelete

Bom, o filme já não é lançamento, contudo, só agora fui assisti-lo. E, sem desapontamentos! Para quem apreciou a ideologia libertária e a busca filosófica pela verdade de Matrix e A Vila (The Village) com certeza V de vingança é um ótimo filme. Ótima fotografia, atuações excelentes e um clima poético! Dica para o feriadão...

21 de mai de 2008

Ser cristão

"Ser cristão significa ser como Jesus Cristo. Ser Cristão depende de uma certa relação interior com o Cristo vivo. Por meio dessa relação todos os outros relacionamentos do homem - com Deus, consigo mesmo, com as outras pessoas - são transformados."

Stephen Neill, citado em A conspiração divina, Dallas Willard.

Infelizmente, temos visto que a maioria das pessoas que professam ser cristãs em nada tem semelhança com Cristo. E suas vidas, suas atitudes, relacionamentos e suas obras não fazem relação, ou não resultam de um relacionamento íntegro e vivo com Cristo. O problema? Rezar uma cartilha, proclamar um dogma, discorrer um credo, frequentar quatro paredes sacras e carregar um rótulo religioso tornou-se sinônimo de ser cristão... E, ora, isso não é ser cristão!

20 de mai de 2008

Coração de pedra

Ali é o lugar ideal pra quem quiser se esconder e ser mais um na multidão.

Ali é onde os homens se abraçam mas, na hora de pagar o preço, lavam as mãos.

Ali é onde todos se encontram mas acabam se perdendo por achar que são invencíveis.

Ali não há lugar pra tristeza, pra angústia, pra dor ou pra gemidos inexprimíveis.

Deus não habita mais em templos feitos por mãos de homens.

Deus não será jamais acorrentado às paredes de uma religião.

Deus não habita mais em templos feitos por mãos de homens.

Deus não será jamais enclausurado na escuridão de quem ainda tem um coração de pedra.

Ali ninguém conhece a essência, tão somente a aparência de viver em comunhão.

Ali é onde os loucos se entendem, onde os sábios se prendem ao valor da tradição.

Um falso paraíso presente, um fanatismo distante, um cristianismo sem direção.

Ali é onde todos proíbem, onde todos permitem, onde são assim, nem "sim" nem "não".

Que vença, mesmo que haja desavença, todo aquele que repensa na crença da onipresença de Deus.

Sejamos coerentes, transparentes, reluzentes, conscientes, todos crentes que somos os filhos seus.

Na rua, no trabalho, na escola, na loja, na padaria, no posto, na rodovia, na congregação.

Que haja em nós o mesmo sentimento: que Deus habite em nosso coração!


Coração de pedra, João Alexandre [via Marco.maps]

A justiça seja feita

É comum a comparação do movimento evangélico ao catolicismo medieval nas discussões afins, mas observo que há injustiças nesse ato. Vislumbrar a arte medievalista gótica, manuelina, a colorida e abrasada luz na rosácea de Sainte-Chapelle, a românica Saint-Sernin de Toulouse nos dá a dimensão de que, de forma branda e sagaz, limitamos tamanho legado erudito. Por isso considero uma afronta à intelectualidade rebaixarmos toda uma era de cultura e arte ímpares ao patamar de um movimento que consegue seu triunfo na bestialidade alheia e eliminação da cultura.

Fonte: A ignorância é uma escolha.

19 de mai de 2008

Uma mensagem real para uma vida real

Muito pouca gente hoje acha Jesus uma pessoa interessante ou de importância vital para o curso da sua vida real. Ele não é em geral considerado uma personalidade da vida real que lida com questões da vida real, mas tido como alguém ligado a um plano etéreo distante daquele que precisamos enfrentar, e enfrentar agora; e, francamente, ele não é tido como uma pessoa de muita capacidade.
Jesus é visto mecanicamente mais ou menos como uma figura mágica - um peão ou quem sabe um cavalo ou um bispo num xadrez religioso - que se enquadra somente nas categorias do dogma e da lei. Dogma é aquilo em que você tem de acreditar, quer acredite ou não. E lei é aquilo que você precisa fazer, quer seja bom para você ou não. Por outro lado, aquilo em que temos de acreditar agora, aquilo que temos de fazer agora é a vida real, prenhe de coisas e pessoas interessantes, assustadoras e importantes.
Ora, na verdade Jesus e as suas palavras jamais pertenceram às categorias de dogma ou lei, e compreendê-los assim é simplesmente não compreendê-los. Pois ele e suas palavras são em essência subversivos em relação aos sistemas e aos modos de pensamento estabelecidos. Isso é evidente diante da maneira como eles entraram no mundo, diante das consequências iniciais que eles provocaram, do modo como estão preservados nos escritos do Novo Testamento e da maneira como persistem vivos no seu povo. Ele mesmo definiu as suas palavras como "espírito e... vida" (Jo 6:63). Invadem o nosso mundo "real" com uma realidade ainda mais real, o que explica por que os seres humanos de então e de agora têm de se proteger delas.
O dogma e a lei - equivocadamente talvez, porém compreensivelmente - vieram a se cercar de um ar de arbietrariedade. Em função de como os nossos pensamentos nos chegaram através da história, para a maior parte das pessoas hoje dogma e lei significam simplesmente aquilo que Deus quis. Essa visão torna essas duas coisas importantes, e igualmente perigosas, e é conveniente que se reconheça isso. Mas também rompe qualquer ligação com o senso de como as coisas realmente são: com a verdade e a realidade. E a nossa "vida real" é a nossa verdade e a nossa realidade. É onde as coisas realmente acontecem, não num plano de suposições que só ameaçam dificultar a vida, ou quem sabe torná-a intolerável.
A vida e as palavras que Jesus trouxe ao mundo vieram na forma de informações e realidade. Ele e os seus primeiros companheiros conquistaram o mundo antigo porque fizeram correr nele uma torrente de vida - da vida mais profunda -, juntamente com as melhores informações possíveis sobre as questões mais importantes. Eram questões com que a mente humana já vinha seriamente se debatendo sem muito sucesso havia um milênio ou mais. A mensagem original, portanto, não foi recebida como algo que as pessoas tinham de acreditar ou fazer, porque senão algo ruim - algo sem ligação essencial com a vida real - lhes aconteceria. As primeiras pessoas alcançadas por essa mensagem concluíam em geral que seria loucura desprezá-la. Esse foi o fundamento da sua conversão.

Retirado do livro A conspiração Divina de Dallas Willard.

Tive o imenso prazer e alegria de encontrar-me com o Daniel do Dliver blog que gentilmente trouxe para eu ler o livro do qual cito acima. Apesar de morarmos a poucos quilômetros de distância, ainda não haviamos nos reunido. Contudo, ontem surgiu uma ótima oportunidade, quando ele veio para Anápolis. Participamos de um culto com a preleção de Paulo Jr., um pastor de Goiânia a frente da igreja Sal da Terra, cuja a palavra ainda está ecoando em meu coração. E ainda será refletida aqui neste blog!
O encontro com o brother da blogosfera foi no mínimo revigorante e renovador. São nesses momentos que reflito na importância do Corpo de Cristo e na relação em que cada membro deve desfrutar. Os momentos que passamos conversando e compartilhando a vida de Cristo entre nós, mesmos que rápidos, foram de uma renovação na alma sem igual. Oxalá pudesse encontrar-me com todos os irmãos blogueiros e edificar-nos uns aos outros não somente na blogosfera, mas, no calor de um encontro presente...

18 de mai de 2008

Até quando os lobos uivarão disfarçados de pastores?


Hoje, quase que na maioria esmagadora das vezes, um ditado fala mais do que uma pregação.

O silêncio tem maior volume do que muitos conselhos. O sorriso é maior do que um "te amo irmão".

É assim que se prova – na carne – que comprovar algo pelas vias do muito estudo só causa enfado. Muitas vezes o que se gera são apenas estudos e teses concebidas para réplicas e tréplicas a partir de um tradicionalismo seco em seres tradicionalmente secos. E nada mais. Areia no deserto... Chuva no molhado.

Na maioria das vezes não há o que provar: a vida é prova inconteste: viver é provar. De todos os frutos. Dos bons e dos ruins. Dos amargos e dos doces. Dos pequenos e dos grandes.

Viver é provar. Mas, na religião exige-se provas muitas vezes. Prove-me e assim será, diz-se. Exemplares são as experiências de mudanças sociais encaradas por dentro das igrejas evangélicas que são quase um suicídio: acusa-se o "moderninho" de tudo: falta de fé, falta de submissão, alguém que não dá atenção para a história - seja da igreja ou da denominação -, um desafiador dos mais velhos e por aí vai.

Afinal, um corredor onde o personagem principal do Bicho de Sete Cabeças - o filme - bem conhece: Enlouquece. Entristece. E você ainda fica sendo tido como um pervertido dos bons costumes e da boa moral. E além: um pervertido espiritual.

Não há o que provar. Não há palavras a serem ditas quando o sistema político não lhe permite. Resta-lhe o silêncio, a dor e a angústia da perda.

Um dia - e esse dia sempre chega - a história acontece. Os conceitos são revistos, a moral também, os “bons costumes” mais ainda e aí tudo muda.

E ainda vai restar ao "perturbador dos bons costumes e da ordem" a frase de que quis fazer as coisas "fora do tempo de Deus".

Ah... A igreja evangélica.... Até quando?

O que há é a Lei de Murphy aplicada às coisas, situações e pensamentos “incomuns”. Os três estágios são: 1) é impossível – não perca seu tempo; 2) é possível mas não vale o esforço; 3) eu sempre disse que era uma boa idéia.

Mas - diga-se de passagem – não me ocupo aqui de planos, projetos, eventos, comportamentos, modos e modas. E quando me refiro aqui a essa “Lei” (no pior sentido religioso da palavra) faço não em relação a questões periféricas pelas quais não se vale a pena lutar (nem na defesa nem no ataque e nem no meio de campo).

Aqui, neste site, minha ocupação é com o que é essencial. E é no campo da essência que travo minha-nossa batalha da vida. O que vale - quando a vida está no limiar do buraco negro - é o essencial. E o essencial é amar a Deus e ao próximo de todo o coração. O resto é só isso, o resto.

Deus sentiu saudades de quando passeava com o homem no jardim... houve (desde sempre) a cruz e Ele continua querendo caminhar conosco...

Mas não há tempo. Estamos ocupados dizendo às pessoas de qual corrente ela precisa participar para ficar liberta, com quem elas devem casar, qual roupa "decente" devem usar, aonde podem ir, o que podem fazer, o que não podem, que prazeres devem ter, as obrigações eclesiásticas que devem ter para serem realizados... E o resto? Bem, o resto - o conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará [de tudo, acrescento eu] - fica para depois.

É como o governo: primeiro o crescimento econômico, depois o social. Ah tá. Então eu acredito.

Primeiro, na igreja, ensinamos as pessoas a serem denominacionais, a serem evangélicos, a baterem palmas, a não baterem, a orar alto, a não orar alto, a falar em línguas, a não falar, afinal, a fazerem o trabalho de Deus, afinal, a serem evangélicos. Ou seja, tudo aquilo que não interessa. Depois a gente ensina sobre o resto.

Pena que não dá tempo. Até quando?

Se tenho receio do que escrevo aqui, onde posso ser tido por amargo, traidor e coisas do gênero? Não, não tenho. A luz sempre trás a verdade. E a verdade sempre liberta.

No Caminho, onde a vitória é bem doado sem qualquer barganha moral-religiosa,

Vando, no blog Dos dois lados do Equador. [via Pavablog]

16 de mai de 2008

A igreja subversiva e clandestina continua crescendo...


Todos os dias, recebo notícias e testemunhos de cristãos que estão se reunindo, se encontrando fora dos chamados guetos evangélicos, católicos ou fora do sistema religioso institucionalizado. Há uma igreja clandestina crescendo. Nas estatísticas oficiais, eles são designados de “os sem igreja” Cristãos se encontrando informalmente para estudar e reler o evangelho de Jesus. Cristãos se reunindo para orar. Cristãos se encontrando para desenvolverem projetos sociais. Cristãos que se cansaram de defender as cores de suas denominações ou grupos religiosos, muitos, às vezes, sectários, radicais, inflexíveis. Cristãos feridos pelo sistema religioso que estão encontrando cura no serviço cristão. Cristãos se voluntariando em hospitais, asilos, creches, cadeias, favelas e em ONGS sérias que visam o bem da humanidade em todos os seus aspectos e necessidades.

Cristãos encontrando comunhão saudável em lugares os mais diversos. Cristãos se envolvendo em causas justas, não importando quem as iniciou, isto é, de quem foi a idéia. Cristãos cobeligerando em nome da paz, da justiça, do bem comum. Cristãos sendo apenas cristãos e não religiosos. Sabe-se que em países ainda repressivos, esta igreja clandestina e subversiva cresce. Cresce nos porões e misturada no meio do povo e em ações comunitárias absolutamente relevantes.

É impossível enumerar os cristãos que dizem estar melhor fora dos seus guetos religiosos. Confesso que noutros tempos isso me angustiava, mas, hoje; hoje não. Por conta do que se tornou o chamado “mercado religioso”, hoje, confesso, prefiro ver o engajamento de muitos cristãos em movimentos comuns de rua, de cortiços, das favelas, de sem terra e sem tetos. Movimentos em favor da ética. Movimentos em favor da ecologia pensando no aquecimento global e no bem estar do mundo.

Gosto de saber que há meninos e meninas se encontrando em lugares públicos para ler o Evangelho, orar e desenvolver amizades espirituais. Gosto desta clandestinidade. Gosto desta subversividade. Gosto do sal diluído no meio da multidão. Gosto da luz em lugares que antes eram só trevas. Hoje, quando ouço os reclamos do interminável contingente de pessoas, queixando-se dos males que estão sofrendo em seus sistemas religiosos, em seus guetos evangélicos, em seus modelos de espiritualidades, confesso, não consigo mais encorajá-los a ficarem ali. Encorajo-os a encontrarem outros irmãos e se reunirem em algum lugar e ali celebrarem a fé, a amizade, o amor, a solidariedade, ler o Evangelho e buscar interpretá-lo e traduzi-lo pra vida.

Não consigo e nem quero mais participar de rodas em que o tema é os que estão explorando a boa fé de muitos. Cansei disto. Não tenho ânimo para insistir em denunciá-los, até porque a imprensa já o faz diariamennte tal o tamanho deste quadro que chega ser trágico. O ministério público tem feito. Na verdade, a maioria das situações denunciadas são casos de polícia e muitos estão sendo investigados, processados e presos. Acho que este é o caminho melhor, isto é, denunciá-los à justiça e deixar que esta os enquadre conforme as conclusões judiciais.

Penso que aos cristãos cabe apenas serem cristãos. Quem disse que era pra ser assim? Qual a instituição religiosa que Jesus organizou? Segundo o que entendo no Evangelho, não há mais lugar santo, nem dia santo, nem púlpito santo, nem encontros santos. Não há mais o clero que intermediava entre o homem e Deus. O véu do templo se rasgou e não apenas nós podemos chegar lá mas a Glória do Eterno vazou para nós.

Creio nesta igreja clandestina, subversiva, invisível, diluída no meio das pessoas. Creio nestes encontros simples. Creio nestas reuniões extra-oficiais. Hoje, não a razões para ficar aprisionado a um sistema religioso que sobrecarrega seus adeptos com cargas insuportáveis de dogmas, maldições, chantagens, coação, pressões psicológicas, espalhando somente o medo e o terror.

Minha palavra aos que reclamam disto é, porque você continua lá? O que te pende? Certamente não é Deus. Portanto, se não é Deus, quem é? Ou é o poder de persuasão de homens e mulheres que exercem tal domínio sobre muitos ou até mesmo de outra origem que nem quero aqui citar? Quero fazer parte desta igreja que cresce na clandestinidade, na subversidade, no anonimato, no meio do povo. Quero fazer parte desta igreja que se espalha, se dilui, e, como água, penetra os lugares impenetráveis. Quero essa igreja, que não tem sede e nem utensílios caros e muito menos um clero ditando o que deve ou não ser feito.

A resposta aos exploradores de almas e de bolsos será dada quando os cristãos deixarem de alimentá-los, sustentá-los, enriquecê-los, paparicá-los, louvá-los, exaltá-los, ovacioná-los. Parem de contribuir para seus projetos megalomaníacos de construir suas torres. Contribua com aqueles que, se você, seus filhos, seus pais e amigos estiverem num hospital, eles irão visitá-los. Contribua com os que visitam os presos em cadeias. Contribua com os que estão militando entre os necessitados e você sabe seus nomes, conhece suas famílias, sabe onde moram. Pare de contribuir com os que estão construindo mansões. Pare de contribuir com os que vivem voando pelos ares em seus jatos particulares. Parem de contribuir com aqueles que têm motoristas particulares e carros impostados pagos a preço de ouro e com as ofertas de gente simples. Pare de contribuir com aqueles que só usam roupas de marca.

Contribua com os que estão aconselhando seus filhos pessoalmente. Conhece-os pelos nomes. Contribua com aqueles que você pode ligar de madrugada e eles os atendem. Contribua com aqueles que você sabe o número do celular e quando você liga, eles atendem. Contribua com aqueles que lhes respondem os e-mails. Contribua com aqueles que te atendem em horas de desespero. Contribua com aqueles que foram nos funerais de seus familiares e choraram com você e sua família. Contribua com homens e mulheres que você já chegou perto e viu, testemunhou que são seres humanos normais.

Não contribua com semi-deuses. Contribua com aqueles que você pode tratar pelo primeiro nome. Tenho pra mim que esta é a melhor forma de denunciar e destronar estes que vivem da miséria de tantos. Se você faz parte de um pequeno grupo, uma pequena comunidade onde você é tratado com dignidade, pelo nome e o que ali é ensinado e feito, todos sabem e nada está debaixo dos tapetes, fique aí e contribua com seus recursos. Não contribua pra manter programas de rádio e televisão de ninguém a não ser que você tenha absoluta certeza que seus recursos de fato estão sendo investidos de maneira correta.

Contribua com aqueles a quem você tem acesso. Contribua com os que te ouvem. Contribua com os que te atendem. Contribua com gente que tem ouvidos e sensibilidade para com você e os seus próximos. É por isto que creio nesta igreja clandestina, subversiva, pois, ela pode não ser conhecida na mídia, mas, é conhecida nas ruas, nas favelas, nos guetos, nos hospitais, nos asilos, nas creches, nas escolas, nas cadeias, nas unidades da Febem, e em tantos outros lugares. Oro pra que esta igreja cresça. Oro pra que milhares de pequenos grupos sejam constituídos. Oro para que os movimentos como Caminho da Graça e outros nunca se institucionalizem a ponto de se tornarem tão pesados que não consigam mais atender as pessoas.

Oro, oro mesmo, pra que Jesus seja visto e conhecido em lugares simples, em encontros simples, no meio de gente simples e ali, Ele cure, restaure, reconcilie, reconstrua, salve, ressuscite, enfim, que Ele faça aquilo que só Ele pode fazer. Creio nesta igreja.

por Carlos Bregantim - mentor do Caminho da Graça - Estação São Paulo [via Pensando no Caminho]