21 de jan de 2009

Agora vou até o fim



Não sei porque me posicionei contra a invasão de Gaza. Não sou palestino, nunca estive nas áreas bombardeadas e não tenho nenhuma afinidade com qualquer militante do Hamas. Embora reconheça que existam muitos cristãos entre os palestinos, entendo que a maioria é islâmica. Não conheço nada do Corão. Gosto da cultura judaica e Jesus, meu senhor, era judeu.

Então, por que, meu Deus, eu me revoltei contra a carnificina de 2009? Consolidei a minha reputação de relativista, amigo de liberais e inimigo do “povo escolhido de Deus”. Só falta me rotularem de antisemita (Sem querer me defender, mas para registro: Sou admirador do pensamento judaico e reconheço a tradição pacifista dos teóricos do pensamento semítico).

“Ricardo, você não sabe que o mundo inteiro estará contra Israel? Não sabe que Jesus virá nas nuvens para advogar a causa do seu povo? Não sabe que o mesmo Deus que mandou dizimar cidades inteiras, matando crianças, velhos e animais, agora “limpa” o território de Israel? Não sabe que você corre o risco de ficar ao lado do Anticristo e da Besta Fera?”

Eu, que já estava ferrado, me indispus, completamente, com os evangélicos. Minha reação, diante de todos os arrazoamentos: Jesus de Nazaré jamais aprovaria o que um Estado militarizado e opressor faz com os pobres ridiculamente enjaulados numa tira de terra com quarenta quilômetros de extensão por dez de largura. Cristo não tolerou que os filhos de Boanerges invocassem a casuística bíblica para chover fogo do céu sobre os samaritanos. Não impulsionou a causa dos zelotes, não provocou ódio e não incitou vingança.

O movimento evangélico, em sua grande maioria, interpreta as profecias bíblicas com as lentes do fundamentalismo. Na versão mais comum, o mundo inteiro se revoltará contra os judeus. Liderados pelo Anticristo, os povos vão guerrear contra Israel. Mas Jesus vai voltar para resgatar o seu povo.

Uma pergunta, só uma: Por que as nações se revoltariam contra Israel? Se o Estado de Israel cometer atrocidades, oprimir e massacrar, então eu sou obrigado a me opor a ele. Nenhuma profecia me obriga a aceitar a maldade. Não posso pactuar com projetos meticulosamente programados para humilhar um povo sofrido e injustiçado. Assumi um compromisso com a justiça e não com uma leitura equivocada da profecia. Estou do lado de quem faz o que é louvável e de boa fama, não posso tolerar massacres.

E as profecias? Não sou contra nenhuma profecia, apenas inimigo da interpretação que a teologia fez da profecia. Não sou contra o projeto de Deus, apenas hostil à instrumentalização do seu projeto para beneficiar uma religião ou uma ideologia. Não sou contra a Bíblia, apenas estranho ao cinismo religioso.

Sei que devo ficar calado e curtir as minhas indignações na privacidade. Não consigo! Talvez a minha índole sertaneja me empurre para o lado de gente como Noam Chomski, Jimmy Carter, Norman G. Finkelstein, Naomi Klein e outros liberais, humanistas, relativistas e pósmodernos. Reconheço que sou impetuoso, na maioria das vezes, visceral. Como pentecostal, transbordo emoções.

Não gosto de beliscão. Melhor ficar de bem com a maioria, não me indispor com os poderosos e não cutucar quem ferroa. Levo bordoada e acabo chateado, mas fazer o quê?:

Quando eu nasci veio um anjo safado
o chato dum querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim. - Chico Buarque.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim [via Stay Freak]

5 comentários:

  1. Vale à pena conferir a opinião bastante contundente de um palestino: http://www.caiofabio.com/novo/caiofabio/pagina_conteudo.asp?CodigoPagina=0426700004

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  2. Saudações.

    Concordo contigo quanto a posicionar-se contra Israel. E considero isto perfeitamente em acordo com a doutrina Bíblica, por um motivo simples: o Dispensacionalismo não tem história na Igreja, é uma invenção moderna, afetado por movimentos heréticos, que aceitou contribuições teológicas até de Jesuítas, no seus primórdios.

    Estas ocorrências de hoje, esta batalha desleal contra os Palestinos só confirma o que a Escritura diz: O Judeu é um povo sem Cristo, e, portanto, sem Deus.
    E apoiam a interpretação histórico-continuista do Apocalipse (até porque aplicar literalismo a uma profecia costuma resultar em problemas sérios... imagine se alguém resolve interpretar literalmente as visões de uma besta de várias cabeças em lugar de interpretar literalmente apenas a referência aos 1000 anos de paz...).

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  3. Só um adendo,
    o povo de Jesus, é que aceitou seu sacrifício.
    Os Judeus só são dele se o aceitarem.

    Ellen

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  4. Cara, ele evidentemente esta se posicionando contra Israel e contra os Judeus.


    Isso é anti-sionismo e anti-sionismo é anti-semitismo! Ele odeia Israel, ele é bem próximo do pensamento do Hamas, por mais que nege...

    Eu entendo um pouco sobre o "ódio aos judeus" e nesse ponto Gondim se encaixa com o pensamento neonazista =/

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  5. Corretíssimo. O que mais eu poderia dizer desse texto?

    Vitor, a verdade é só uma, que o povo de Israel está fazendo algo abominável e NADA lhe dá esse direito. Como cristão eu tendo a ficar do lado de Israel, mas como cristão também eu não posso concordar com esses ataques impiedosos. Desde que isso começou eu venho pensando nisso e o Ricardo Gondim conseguiu externar o que estava no meu interior também.

    Eu apoiaria um ataque de represália a Israel? O Ricardo apoiaria? Lógico que não. A balança que não pesa a favor do Israel opressivo de agora não pesaria a favor da opressão do Israel que vier a sofrer no futuro.

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