6 de jan de 2009

Decepcionado com a igreja



Não consigo esquecer-me do meu primeiro dia na igreja. Uma sorridente recepcionista me recebeu com grande entusiasmo. No momento da apresentação dos visitantes, pessoas não menos entusiasmadas me cercaram, oferecendo apertos de mãos e expressões como: “Seja bem vindo!”, enquanto a outra parte aplaudia efusivamente. Qual a minha surpresa ao receber uma carta na mesma semana agradecendo-me mais uma vez pela presença, e convidando-me a voltar outras vezes. Quem não ficaria empolgado com tamanha atenção?

Esta cena é habitual na rotina de diversas igrejas. Dificilmente, uma pessoa tão bem recebida não voltará mais vezes, e a grande chance de angariar um novo membro é muito grande. Apresenta-se a idéia de um lugar onde todos se amam,se ajudam, lutam por objetivos comuns, almejando alcançar as mesmas coisas.

A jornalista e cientista política Lucia Hippolito normalmente costuma usar uma frase quando se refere ao PMDB: “O PMDB não é para amadores”. Fazendo uma alusão a esta frase, após 16 anos na igreja, posso afirmar sem medo: “Ser evangélico e viver ativamente numa igreja evangélica não é para amadores”.

A verdade é que nosso sistema religioso institucional está adoecendo. A mensagem do Evangelho vem perdendo a força na maioria das igrejas. As novas ondas de crescimento, dos resultados, do marketing evangélico, do status e do reconhecimento estão fazendo que a igreja passe pela sua maior crise de identidade.

O foco deixou de ser a vida das pessoas, e passou a ser quantas pessoas eu consigo trazer para minha igreja. E para isso os mais diversos atrativos são utilizados: promessa de milagres, cura, um templo luxuoso e confortável, interatividade e entretenimento na igreja, entre muitos outros. O problema é que as pessoas deixaram de ser cuidadas. Muitas vezes aquele suposto amor do primeiro dia é trocado pela indiferença, onde o pastor deixa de ser o mentor espiritual de vidas ( ou porque não tem tempo porque está inserido em muitas outras atividades que desfiguram seu chamado pastoral ) e torna-se um burocrata pragmático que prega sermões aos domingos. Quantas brigas cercam pastores e ministérios “rivais” que não se falam, porque um supostamente cresce mais que o outro. Quantos clãs e dinastias se instalam nas igrejas e assume cargos importantes não por seu amor a obra de Jesus, mas porque os seus dízimos são importantes. Quantos aproveitadores entram no “esquema” para se dar bem. Quantos são desvalorizados mesmo tendo coragem de morrer por Jesus. Alianças, acordos debaixo dos panos, casos abafados conforme os objetivos, irmãos querendo derrubar outros irmãos, uso inconseqüente de poderes, jogos de influência, falsidade, descaso... Ufa! Mas muitos acreditam que isto não acontece aqui, não no Brasil... Provavelmente deve acontecer em alguma igreja do interior da Indonésia.

Não quero entrar em um debate com extremistas assim: “Porque você em vez de ficar falando, não sai?” . Na verdade tenho uma preocupação. Onde iremos parar? Já aconteceu no passado com outros movimentos que se burocratizaram tanto que perderam sua força. Compartilho a idéia do pr. Ricardo Gondim quando diz que o movimento evangélico tal como nós o conhecemos está trilhando seus últimos dias. Veja:

É engraçado porque, mesmo com a Igreja brasileira atravessando uma tremenda crise de conteúdos, a gente vive um momento de ufanismo evangélico. A Igreja Evangélica brasileira tem uma grande dificuldade de examinar a si mesma, porque está muito entusiasmada com seu próprio crescimento. Mas é fácil constatar que o Evangelho tem sido pregado e vivido de uma maneira extremamente pragmática, utilitária. Que Evangelho estamos pregando? É um Evangelho de resultados, onde o que interessa menos é o próprio significado da conversão. Isso é muito grave. O significado da expressão “nascer de novo” está muito difuso dentro das nossas igrejas. O que é nascer de novo? Esta experiência basilar foi diminuída a um simples rito comportamental de levantar a mão, vir à frente, seguir cinco ou seis “leis espirituais” – confesse isso, declare aquilo, aja deste modo. Ou seja, virou um credo. E um credo ralo. O conceito de nascer de novo está muito fragilizado, além de se falar pouco nele. E quando se fala, não sabemos nem a que estamos nos referindo. O movimento evangélico, tal como hoje o conhecemos, está próximo do seu fim.

Os sinais desse esgotamento são claros. Um deles é a fragilidade teológica e doutrinária dos adeptos do movimento evangelical nas bases. Se você perguntar a um membro de igreja evangélica, hoje, por que é evangélico, ele vai responder com um chavão ou relatando uma experiência mística, metafísica, sem qualquer conteúdo básico, exegético, hermenêutico. E essa experiência mística caberia muito bem em qualquer outra vivência religiosa, do budismo ao espiritismo. Esse esvaziamento teológico nas bases demonstra que a longevidade do movimento evangélico está comprometida

(Fonte: http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=25).

Não tenho uma resposta pontual para a resolução desses problemas, pois, são frutos de anos e anos de descaso e abandono de ideais. Mas, se tenho uma preocupação tenho uma esperança: que a igreja possa reagir. Não sou um defensor das igrejas emergentes, pois não compartilho e não concordo de algumas bases, mais confesso que pode ser um caminho. Ela trabalha com uma idéia que desestimula a institucionalização, a formalização, a burocratização. Pode ser esse o caminho que nos levará de novo ao interesse pelas pessoas, pelo compartilhamento, para a unicidade, para o crescimento de dentro pra fora como cristãos. A esperança provavelmente está no momento que a igreja deixar de ser rentável, e aqueles que resistirem a quebra entenderem que a verdadeira igreja somos nós, os seres humanos pelo qual Jesus morreu.

Flávio no Stay Freak

9 comentários:

  1. Confesso que ultimamente não tenho curtido textos onde se "gratificam" críticas repetidas contra as pragas da intitulada igreja no Brasil... Talves porque enfim consegui racionalizar mais da minha experiência nesse âmbito; sei lá... É como se fosse uma fase que todos deveriam passar e sair mais crescidos: desistir da religiosidade e denunciar seus abusos intrísecos. Todos devemos dar passos adiante; deixar de reclamar e querer melhorar a nossa própria moral manchada pela vivência farisaica paradoxalmente eclesiástica.
    Infelizmente, o amigo Flávio, aqui, tem toda razão. A igreja brasileira está em crise e eu sou um dos intusiastas que deseja encontrar algum dia uma comunidade reunida sem cargas sedimentadas pelo farisaismo evangélico brasileiro.
    Ter consciência de que precisamos uns dos outros é o que nos faz ser Igreja, primitivamente, tendo sempre em mente a nossa missão de mensageiros do amor, vivendo condizentemente com a vontade de Deus expressa nos escritos Bíblicos.

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  2. Vc sonseguiu dizer tudo o que eu sempre quis mas não tive coragem ate agora.

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  3. Thiago, show de bola o seu blog. Parabéns!

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  4. Graça e paz vos sejam multiplicadas, irmão Thiago Mendanha.

    Seria interessante, voltarmos à igreja primitiva, e quando tiver duas ou mais pessoas verdadeiramente convertidas a Cristo, comecem a se reunir como igreja.

    Certamente enfrentarão muitos desafios começando com um grupo pequeno. Mas, uma igreja é um grupo de pessoas, sejam 2 ou 2.000 (Mateus 18.20), chamadas para fora do pecado para servir ao Senhor.

    Não precisa da autorização de ninguém daqui da terra para fazer o que Deus já autorizou.

    Deve-se fazer tudo o que Deus ordenou que uma igreja fizesse: ensinar a palavra, orar, cantar hinos de adoração, participar da Ceia do Senhor, cada um contribuir de sua prosperidade para as obras que Deus ordena, etc., examinemos Atos 2.42; Colossenses 3.16; 1Coríntios 11.17-34; 16.1-2; 1Timóteo 3.15.

    Com tempo, dedicação e a bênção do Senhor, um grão de mostarda pode crescer numa árvore!

    Fraternalmente.
    James.
    Jesus, o maior Amor

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  5. também tenho 16 anos de evangelho e hoje não mais sinto-me motivado a ir a igreja, pois sei de ante mão tudo quanto irá acontecer, haja vista o fato de ter se tornado a igreja completamente previsível e com pessoas que querem tomar o lugar de Deus,infelizmente o conceito de comunidade ruiu e o pior de tudo,esta fazendo muitas vítimas!!!!!!!!!!!

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  6. vivemos na graça ou na lei....
    se vivemos na graca por que damos dizimo na igreja?

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  7. Boa tarde irmãos e amigos,

    Este texto reflete exatamente o que eu penso, como sinto falta daquele movimento religioso de amor e graça, hoje tudo se transformou em STATUS.

    No final de 2011 tive um problema sério no meu imóvel, pois como meu terreno é acidentado as chuvas quase derrubaram minha casa. Meu imóvel ficou a praticamente 2 metros de um barranco de aproximadamente 5 metros, como sofri, como chorei... A única coisa que eu queria naquele momento era receber um abraço da minha igreja, não estou falando de ajuda financeira, nem que algum irmão trabalhasse pegando no pesado, senti muito a falta de uma oração uma visita. A indiferença das pessoas a minha dor me fez sofrer muito. Chegava na igreja com os sapatos sujos de lama, minha casa fica em um ponto nítido do bairro, onde todos tinham conhecimento mas nem se quer uma visita para orar comigo eu recebi.

    Depois desse episódio, infelizmente não consegui mais ir a igreja, sinceramente eu CREIO NO EVANGELHO e sei que NÃO HÁ OUTRO CAMINHO A NÃO SER JESUS, mas eu não consigo congregar mais naquele lugar.

    Não quero que meu texto influencie ninguem a respeito das igrejas, este é apenas um desabafo de um irmão que ama a sua igreja e que a indiferença dles acerca da inha dor me deixou uma cicatriz na alma ENORME

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  8. Presisamos é sair dessas 4 paredes e começar a pregar o evangelho na rua, falar do amor de Cristo, se levantar dos bancos e meter a mão na massa.
    Não abandonar a igreja, pelo contrário mobilizar pessoas para fazer a obra, pensar não só no espiritual mas tambem no social, dar comida a quem tem fome, abrir a igreja para projetos sociais e etc.
    Isso meus irmãos, isso traz avivamento espiritual, isso traz ânimo, isso faz com que o crente em Jesus entenda qual é o verdadeiro propósito de termos a marca dEle em nossa vida.
    A água parada aprodece mas a corrente traz vida.
    JESUS SEJA CONVOSCO, AMÉM!

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  9. Amados o Senhor disse que somos templo do espirito Santo. A verdadeirta igreja somos nós, e nehuma de pedra mas n´s com nossas atitudes e bondade para com todos, o verdadeiro evangelho é seguir o exemplo do filho de Deus e não leis de homens que é o que se faz mais que tudo em uma igreja " templo".

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Fico muuuuuuuito feliz com a iniciativa de deixar seu comentário. Aqui você pode exercer sua livre expressão e opinião: criticar, discordar, concordar, elogiar, sugerir... pode até xingar, mas, por favor, se chegar a esse ponto só aceito ofensas contra mim (Thiago Mendanha) e mais ninguém, ok? rs