23 de jan de 2009

Igrejas turbinadas

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Vivemos na época das especializações. O legado da pós-modernidade nos traz de presente, em todo o seu conteúdo, a personalização, ou melhor ainda, a especialização. Não adianta ser simples, tem que haver a especialidade. Sinais dos tempos, diriam uns. Modernidade, diriam outros. Seja o que for, uma coisa é certa: é realidade!
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Ninguém mais procura, por exemplo, um clínico geral. O certo é procurar um especialista em dedo “mindinho” do pé esquerdo, porque se você não tomar cuidado acaba indo num especialista em “dedão” do pé direito. Essa especialização, se formos mais fundo, desembocará, inexoravelmente na individualização. E a individualização leva à arrogância e ao isolamento, assim entramos na roda viva da pós-modernidade. Cada um faz o que quer... compra o que quer... e há mercadorias para todos os gostos. Se alguém pensar hoje em comprar um chocolate verde com sabor de anis numa embalagem amarela, se procurar, encontra. Se não encontrar, entre em contato com o SAC da empresa, isso se você tiver sac. A empresa, pra ganhar um cliente fará o seu chocolate personalizado. Bom isso? Bom! Quando se trata de empresa, sim! Mas quando se trata de igreja...
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Vivemos também a época dos acessórios, que são reflexo da individualidade. Quer um carro básico (do geral), ou vai um acessoriozinho? (do indivíduo). Você quer um modelo de fábrica, que todo mundo pode ter, ou paga-se mais um pouco e tem-se um carro com limpador de para-brisas com dupla borracha e sistema integrado de percepção pluviométrica?
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Como diria o meu amigo e jornalista Fábio Nazareth (a quem devo a idéia do texto), é como comprar na carrocinha de cachorro-quente do Zé. “- É só o pão com ‘salchicha’?(modelo básico), ou a madame quer compreto? (com os acessórios)” Por acessórios entenda-se milho, ervilha, maionese e tantas outras coisas que podem “enriquecer” o sanduíche.
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Uma grande empresa de Fast-Food brasileira (é brasileira, mas é fast e é food) para tentar ganhar o mercado contra a principal rival, que é estrangeira, anuncia que “aqui você monta o sanduíche!” No fim das contas o que importa é oferecer o “algo mais”, ou, na linguagem empresarial, o diferencial da sua empresa. Bom para empresas... ruim para as igrejas...
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Até mulher hoje já não reclama tanto de suas “infelicidades” corporais. Seios pequenos? Turbina neles! Bum-bum “murcho”, a gente ajeita! E saem todas felizes... Sentindo-se Danielles Winnittz e Sheilas Mellos, prontas para serem alvos das mais variadas cantadas, que elas mesmas rejeitam, mas gostam de ouvir. Hoje já não sabemos quais são as originais... Não questiono aqui se mulher deve ou não colocar próteses siliconadas, isso é coisa delas, ninguém se condene naquilo que aprova... Bom para as mulheres? Talvez! Exemplo para as igrejas? Nem tanto...
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Vivemos na geração turbinada: Ser básico não vale; tem que ser “fashion”. Tem que ter algo mais... o diferencial!
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E assim começa (ou continua) o nosso FEBEAIG (FEstival de BEsteiras que Assola as IGrejas), a versão “gospel” do FEBEAPA da época da ditadura, já que tudo (de bom e de ruim) agora tem que ter uma versão “gospelizada”.
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Já não se procura mais um louvor simples. Tem que ser louvor “profético”. Mesmo que o louvor seja dirigido a Deus e que para Deus não se profetize, pois é por Ele e nEle que se encerra toda a profecia, assim vamos nós... o importante é turbinar...
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Já não quero ser um adorador comum, tenho que ser um adorador “levita”, mesmo que essa “casta” já não exista mais. Mesmo que os levitas deixem de existir quando o templo deixa de ser o prédio para ser o corpo e que o sacerdote deixe de ser o líder e todos experimentemos da benção de sermos, nós mesmos, sacerdócio real.
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Já não procuro uma igreja simples, mas uma igreja com “propósitos”. Ora, igreja sem propósitos não é igreja! Se não tem propósitos o que estou fazendo lá? Estou de propósito numa igreja sem propósito? Qual o propósito disso?
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A guerra pelo merchandising de igrejas é algo tétrico. As igrejas se vendem como marcas de cervejas. Uma desce redonda, a outra é a que todo mundo merece, outra é a número um, e por aí vai...
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As igrejas agora acoplam títulos ao seu nome:
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Igreja Tal: a igreja que vive da fé! É lógico que vive da fé. Se não vivesse não servia para ser igreja.
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Igreja X: igreja da comunhão! Se não há comunhão, há igreja ?
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Igreja Y: a Igreja com cara de Leão! Igreja tem que Ter cara é de cordeiro, pois somos entregues á morte todos os dias, como ovelhas para o matadouro... pelo menos é o que a Palavra diz...
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Igreja Fulana: uma igreja da Palavra! Igreja que preza pela palavra não precisa anunciar isso no letreiro, o povo verá. Será uma igreja honrada, cairá na simpatia do povo, ou na perseguição total pela fidelidade que incomoda. Mas não precisa de letreiro luminoso, precisa de gente que brilhe por viver o evangelho. Isso funciona mais que qualquer propaganda.
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Igreja A: uma Igreja que tem Asas de Águia! Igreja não foi chamada pra ter asas de águia, mas pernas de homem. Bem aventurados os PÉS dos que anunciam a paz!! A Palavra diz que é aquele que sai ANDANDO e chorando e plantando a semente... não o que sai voando... A Igreja é chamada de seguidora do Caminho... e é nesse caminho que devemos andar...
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Hoje não há mais simples adoração. Há a “adoração de guerra”, tornando-nos mais belicosos do que já somos... e lutando pela paz.
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Não queremos mais o pastor de ovelhas, mas o Apóstolo das nações.
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Não serve a adoração em espírito e em verdade, só a “adoração extravagante”. Que de extravagante passa a ser extra-vazante, vazando por todos os lados as maiores esquisitices em nome do Deus a quem se deve adorar, não com extravagância, mas com coração contrito e sincero.
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O logos de Deus não faz mais tanto sucesso quanto o rhema da confissão positiva: é a Palavra Turbinada! Só a Palavra não serve... tem que ter a “revelação”.
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Mas... ainda creio que podemos voltar ao cristianismo puro e simples... há mais de 7.000 que não dobraram o joelho ao Baal turbinado.
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Só não quero ver daqui há alguns anos, um comercial onde apareça uma caquética tartaruguinha dizendo: “- Já fiz muito comercial de igreja... mas naquele tempo eles só queriam mesmo era saber de números, de leões, de ursos, águias e outros bichos mais.... mas encheu o SAC!”
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E tá enchendo mesmo!
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Por José Barbosa Junior
Fonte: Crer é também Pensar! [via Púlpito Cristão]

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