7 de mar de 2009

Sexo e a igreja

Sexo e igreja são duas palavras que não se misturam há muito tempo. Geralmente você não vai ouvir as duas palavras numa mesma roda de pessoas. Na mentalidade popular é uma separação tácita. Muitos teólogos de outrora demonizaram o sexo e, desde então, a sexualidade do cristão sofre um terrorismo sem igual.

Mas, até onde sei, há alguns anos, falar de sexo ainda configurava uma grande indiscrição e falta de polidez por parte de uma pessoa. Pais não conversavam com seus filhos sobre sexo. Na escola não havia abertura para instruir a criança quanto a sexualidade sadia. De certa forma, havia muito pouca liberdade de expressão e conduta quando o assunto era sexo. Então, até esse ponto é injusto acusar a igreja de displicência em relação a tal temática, visto que a própria sociedade onde está inserida não avançava nesse sentido.

Contudo, os tempos são outros e o sexo lateja no imaginário popular. Praticamente não existem mais antigas restrições e normas de conduta ultrapassadas nos nossos dias. Tal cenário, no entanto pinta uma sociedade sexualizada e sexual. A liberdade é boa, mas, infelizmente junto com ela vem a imaturidade e a leviandade. As pessoas tendem a não enxergar os limites quando estes não tem seu escopo bem definido. O sexo está em todo lugar. Na rua, em casa, na escola, no trabalho, na faculdade e, queira-se ou não, na igreja - leia-se nas pessoas que estão na igreja... onde quer que estejamos, não importa o contexto, o sexo está lá. Mesmo num mosteiro isolado e solitário, a libido não será alienável e passiva de esvaecimento. O desejo sexual é inerente à alma, ao corpo e, porque não, ao espírito.

Pais tratam com maior fluência sobre sexo com os filhos do que um dia seus pais trataram com eles próprios. A idade de iniciação sexual é cada vez menor e o índice de gravidez na adolescência também cresce preocupantemente. As doenças venéreas alargam-se e alastram com rapidez. As várias modalidades de atração sexual tornam-se cada vez mais expansivas. A banalização do sexo leva a imagem da mulher como artifício de prazer. Muitas mulheres já não se sentem ofendidas e incomodadas com isso. Tudo isso é fruto dessa sociedade desenfreada e de costumes libertinos.

Podemos perceber essas características no nosso dia-a-dia. É quase impossível assistirmos televisão sem sermos convidados a nos excitar. A sensualidade emerge desde a cena de um simples comercial de cerveja até a quase explícita demonstração de sexo nas novelas. E nem citei os canais privados para adultos... Na rua, com certeza, você irá encontrar um grande outdoor exibindo uma "gata" apetecente só para chamar sua atenção a determinado produto - geralmente nem me lembro do produto divulgado. No trabalho os colegas geralmente, quando oportuno, parecem não saber conduzir outra conversa que não seja sexo, cerveja e futebol. A pornografia tem conquistado a cada dia, maior alcance na vida das pessoas respaldada pela projeção da internet. E, claro, em tempos de BBB fica muito mais evidente do que as pessoas gostam na hora do entretenimento: sexo, mesmo que não sejam elas a praticarem.

É nesse ponto que podemos apontar a igreja por desleixo. Porque no que a sociedade avançou com a Revolução sexual, transformando a mentalidade rígida numa mentalidade libertária - ou libertina -, a igreja estacionou no tempo e parece não saber mais se encaixar de forma relevante. A igreja não consegue acompanhar as rápidas mudanças que ocorrem no modo de pensar de cada indivíduo. Há muito ela perdeu o fio da meada, fazendo com que o legalismo seja uma opção segura na tentativa de ser uma pilar de moral para a sociedade onde está.

Quando o assunto é sexo a igreja adota uma postura cínica, retrô e de importância ínfima para a comunidade. Ela busca esconder sua incapacidade de comunicar à nova geração. Tenta camuflar seu despreparo por meio de um discursso arrogante e presunçoso. A igreja não sabe falar de sexo porque há muito já excluiu o sexo como parte essencial do ser cristão. Essa postura parece dizer que para você tornar-se membro da igreja é necessário que deixe de ser sexuado. É imprescindível que reprima sua sexualidade. Essa ideologia é ofensiva e desrespeitosa para com um indivíduo criado à imagem e semelhança de Deus e, originalmente criado para transar e povoar a terra.

Mas, esse não é o único problema. Porque se a igreja omite o sexo e, portanto, perde sua influência numa sociedade pós-moderna, por outro lado, quando se aventura a falar dele o faz de uma forma que poderíamos preferir que continuasse calada e alheia a vida sexual de seus membros. Quando a igreja toma partido no sexo ainda consegue ofender e desrespeitar o indivíduo sexuado criado por Deus. Como de praxe, ela impõe leis e regras que dizem o que pode e o que não pode no sexo. A ideologia afastada da compreensão de que sexo é bom somada à presunção de que ela é a comunicadora oficial de Deus na Terra faz com que muitos estragos sejam feitos em nome Dele. Não é raro ouvirmos absurdos da boca de pastores, padres e outros líderes de vertente cristã, dizendo coisas ridículas e sem sentido quanto a sexualidade de seus membros e as práticas permitidas na hora "H".

Acho que tudo deve-se ao fato de que falar de sexo é realmente algo complicado. Porque tanto religiosos quanto não-religiosos manifestam um jeito desajeitado e incoerente de lidar com isso. De um lado, os religiosos inventam doutrinas que traçam um escopo para o sexualidade dos seus membros. Colocam tudo que não conseguem argumentar, criam restrições, regras e cartilhas, e trancam dentro de uma caixinha, e esperam não precisar nunca mais ter que lidar com a prática do sexo em seus púlpitos. É algo que eles fazem com Deus também - muito pouca criatividade, não? Do outro lado, os não-religiosos externam sua dificuldade de lidar com o sexo extrapolando. Não conseguem entender ou traçar limites saudáveis para a sexualidade e acabam apostando no vale tudo para sentir prazer. Ao invés de terem controle sobre o sexo, o sexo passa ter controle sobre eles. Tornam-se escravos do seu desejo.

Acredito que Deus tem Sua opinião quanto ao sexo. Afinal foi ele quem inventou. E a Igreja é quem deveria portar essa opinião e dar o exemplo de uma sexualidade alegre, sadia, prazerosa e guardada no amor. Dessa forma evitaria-se a sagrada omissão do sexo, seja por sua demonização ou por sua distorção religiosa, e o exagero em colocar o sexo como centro da sociedade resultando na total banalização de algo que deve ser fruto do amor entre um homem e uma mulher comprometidos um com o outro em fidelidade, altruísmo e paixão.

O dotCast abriu, em grande estilo, a campanha e as discussões, inaugurando a blogagem coletiva com um podcast bem, diga-se, sexy.

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-> Ouça o dotCast #24 - SexyDot!

Um comentário:

  1. Na minha congregação falamos de sexo nas reuniões de casais, mas com os jovens o tema é esquecido. Como líder de adolescentes eu peço essa liberdade, mas dependo de líderes, dos pais, e de um empenho geral para falarmos a mesma língua. O triste é ver que tanto casais experientes, como recém casados tem problemas nessa área, até os que casam virgens. Enquanto isso o medo de falar de sexo permanece, e o sexo se afasta do "fazer amor". Se o amor lança fora todo o medo, por que não falar de sexo?

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