3 de mai de 2009

Você sabe onde está sua alma?

Estou no meio de Manhattan, onde motoristas ainda buzinam como se tivessem tocando instrumentos musicais, e gritar nos restaurantes parece um tipo de modalidade esportiva. Estou bem distante da “brisa amena” de vozes que ouvi uma semana atrás no Domingo de Páscoa.

“Glórias ao Teu nome”, as mulheres cantavam e bailavam naquela igreja feita de pedras. Fui tomado por uma “explosão de cores”, uma corrente emocional que me carregou para o mar.

O Cristianismo, de certa forma, possui um ritmo – que é crescente nesse período do ano. O ritmo acelerado do carnaval dá espaço ao andamento lento da quaresma e depois ao stacatto dos hinos da Páscoa. Do devaneio para a reflexão. Depois de 40 dias no deserto, ou algo parecido…

Carnaval – as estrelas do rock são boas nisso

Carnaval vem de Carne vale, ou afastamento da carne, uma festa de despedida. Estive em várias. Os brasileiros dizem que a deles é a melhor; com certeza, eles são os melhores. Não tem jeito de não entrar na dança. Você não tem escolha, a não ser juntar-se aos blocos invadindo as ruas, como as barrancas dos rios, numa enchente de animação marcada pelo ritmo. Isso é uma alegria que não pode ser desprezada. Isso é força da vida. Isso é o sinal de um coração cheio, se derramando de gratidão. A escolha é sua…

Mas, é com a Quaresma que eu sempre tive problemas. Desisti… negar-se a si mesmo é onde me torno um fracasso. Minha ideia de disciplina é simples – trabalho duro – mas é claro que essa é outra indulgência.

Então chega a morte e a ressurreição, que é a Páscoa. É um momento transcendental pra mim – um renascimento que eu sempre vou precisar. Nunca foi tão claro quanto há alguns, quando meu pai faleceu. Lembro-me da vergonha e da libertação trazida por minhas lágrimas quentes, enquanto eu me ajoelhava em uma capela num vilarejo na França, e pedia perdão pela minha natureza pródiga – perdão por ter brigado com meu pai por tantos anos, e por ter desperdiçado tantas oportunidades de conhecê-lo melhor. Lembro-me do sentimento de “paz que excede todo entendimento”, como um peso removido. De todos os festivais cristãos, é a Páscoa que requer mais fé – empurrando você para além da reverência pela criação, além da mística idéia do nascimento virginal, até o inacreditável conceito de que a morte não é o fim. A cruz é como uma encruzilhada. Qualquer que sejam suas crenças, religiosas ou não, a oportunidade de começar de novo é uma ideia motivadora.

Domingo passado, o regente do coral estava surpreendente… agitado e, de repente calmo; alegre e, depois contemplativo, grande virtuosismo no piano e em suas melodias. Ele entoou suas invocações num lindo tenor, com um menino sardento ao seu lado tocando “conga” e tamborim, como se fosse uma bateria inteira. Os fieis cantavam, a plenos pulmões, canções de louvor a um Deus que aparentemente deu Sua voz pela nossa.

Eu venho a igrejas pobres e catedrais arrogantes pra quê? Eu leio a Bíblia com que finalidade? Para avaliar minha cabeça? Meu coração? Não, minha alma! Para mim, essas meditações são como um prumo usado pelo mestre-de-obras – verificando se as paredes estão tortas ou retas. Checo a minha vida emocional com a música, minha vida intelectual escrevendo, mas a religião é aonde eu busco minha alma.

O pregador disse: “Que lucro um homem pode ter se ele tem o mundo aos seus pés, mas perde a sua alma?” Ouvindo isso, os peregrinos se agruparam e perguntaram: “É comigo, Senhor?” Na América e na Europa, as pessoas estão perguntando: “Somos nós?”

Bem, sim. Isto é conosco!

O carnaval acabou. O comércio tem esquentado mercados e climas… o céu empoeirado da revolução industrial, que mudou de lugar e tamanho, agora derrete as calotas polares e faz os mares ferverem, na era da revolução tecnológica. O capitalismo está sendo julgado; a globalização, mais uma vez, está no banco dos réus. A gente dizia que tudo o que a gente queria para o resto do mundo era o que desejávamos para nós. Mas aí descobrimos que, se cada alma viva nesse planeta tivesse uma geladeira, uma casa e uma caminhonete, a gente se asfixiaria na fumaça dos nossos próprios escapamentos.

A quaresma está aqui, quer a gente tenha pedido ou não. E, com ela, esperamos, vem a chance da nossa redenção. Mas, redenção não é um termo só espiritual, mas também um conceito econômico. Na virada do milênio, o movimento em prol do cancelamento das dívidas dos países africanos, inspirado pelo conceito judeu do “Jubileu”, tinha como alvo dar aos países mais pobres um recomeço. Um contingente de 34 milhões de crianças agora pode ir à escola na África, principalmente, porque os governos usaram o dinheiro poupado com o perdão das dívidas. Essa redenção não foi o fim a escravidão econômica, mas foi um esperançoso recomeço para muitos. E, para muitos, e não apenas para poucos sortudos, é para onde a busca pela nossa alma deve nos levar.

Há algumas semanas, eu estava em Washington, quando chegou a notícia sobre a proposta de corte das verbas para o plano presidencial de assistência. As pessoas disseram que seria mais difícil cumprir as promessas feitas para os mais carentes, enquanto houvesse uma crise aqui nos EUA. E será mesmo.

Mas, li recentemente que os americanos estão usando os serviços públicos com mais freqüência, exatamente porque estão sem dinheiro. E, após uma votação multipartidária no Senado, o boato é que o Congresso devolverá a verba que havia sido cortada da área assistencial – rejeitando, assim, o abandono daqueles que estão pagando um preço muito alto por uma crise que não foi criada por eles. É nas horas mais difíceis que as pessoas mostram o que são na verdade.

Sua alma

Grande parte da discussão de hoje é sobre dinheiro - e não valores. Um projeto assistencial bem feito pode ser um bom exemplo para os dois. Providenciando remédio pra AIDS para quase quatro milhões de pessoas, estabelecendo práticas para o progresso da saúde maternal, erradicando pestes que matam como a malária e o rotovírus – tudo isso proporciona um degrau a menos em direção à autosuficiência, tudo isso pode nos ajudar a fazermos amigos em tempos pródigos para se criar inimizades. Não são almas; isto é investimento. Não é caridade; isto é justiça.

Estranho, mas à medida que saía daquela pequena igreja de pedra para o sol escaldante, pensava em Warren Buffet e Bill Gates, cujas fortunas combinadas foram dedicadas à luta contra miséria. Os dois são agnósticos, eu creio. Pensei em Nelson Mandela, que por toda sua vida lutou pelos direitos das outras pessoas. Um homem espiritual, sem dúvida. Religioso? Ouvi dizer que ele não se descreve desse jeito.

Enfim, nem toda música da alma vem da igreja.

Bono é líder e vocalista da banda U2, co-fundador do grupo ONE e colunista-contribuidor para o New York Times.

Fonte: New York Times, traduzido por Nelson Costa / Cristianismo Criativo [via Solomo1]

Um comentário:

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